quarta-feira, 14 de agosto de 2024

O Cachimbo

 





O cachimbo


Flores. 

O cheiro de flores antecedia a chegada dele.

O cheiro e a gargalhada.


Depois as pantufas. O velho sentado no sofá. 

Os olhos perdidos no vazio da parede.

A máquina fotográfica com que captou aquela realidade infeliz.

Um velho. 

Com o seu cachimbo apagado, sem já ter consciência de porque não o acendia.

Estilhaços

 





Escrita criativa

Exercícios de imaginação

Estilhaços


Ela trazia o café numa bandeja redonda e brilhante, com passos leves de amansar as iras e os sonhos. Porque também é preciso amansar os sonhos. Não voem eles demasiado alto e saltem pela janela dos olhos. Foi então que uma bola saltou lá em baixo, no pátio, e fez plom, plom, plom. A velha deixou cair a bandeja, da qual caiu a chávena que se desfez em pedaços. Às vezes as velhas estão trémulas. Não se sabe porquê, mas foi então que tudo parou. O casamento desfez-se em estilhaços cintilantes.

 






Escrita criativa

Exercícios de imaginação

Azul


Entre as agruras da vida, havia o azul dos teus olhos. 

Os teus olhos claros e límpidos de menino a refletir a luz.

Pareciam querer sempre dizer-me alguma coisa. 

E por vezes lá de dentro, espreitava uma maldadezinha, 

que não passava de alguma traquinice, algo matreiro... Sei lá. 

E eu pensava, o menino anjo desceu à terra para estar comigo,

mas tem lá dentro um diabito.


segunda-feira, 8 de abril de 2024

A água

 



A água


 A água veio em avalanche como se fosse uma catarata. 

Quando a água flui assim é como se fosse música. 

Corre água sobre as ideias sem deixar que se percam num sumidouro. 

À minha volta as palavras são açúcar. 

Açúcar é também o que me dizes. 

Vejo as notas em cores. 

Sou invadida por elas e por números. 

Tudo é criação e tudo é real neste universo matemático 

que também é crístico.


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

 



CAIU UMA FOLHA E BUMM


É preciso ter sentido de amor...

e então

Foi no tempo em que a folha caía

A sopa estava ao lume´

E a alma já não doía

Caiu uma folha e bumm

   como se a alma caísse 

tudo ruiu

e o raio que o partisse

nada disse... e partiu


O meu limão

 




O meu limão


Sentado no teu trono, e ocupado

Trono que era meu e te ofereci

Vives a tua vida embevecido

Vida que não conheço, ou conheci

Contas estórias não vividas
Para lá da imaginação
Enquanto eu só, entristecida
Espremo na cozinha o meu limão

Que torna mais azeda a minha vida
E sulca a minha terra adormecida
Mas sei de ti
Pela computação



quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Traço Linhas




Texto introdutório - Lançamento do livro 

"História de Uma Viagem, ou Duas, 

ou Talvez Não"



Traço Linhas

 

Há dias bateu-me à porta o homem das estatísticas. Queria que eu preenchesse não sei que impressos. Não me apeteceu. E disse-lhe que não ia conseguir preencher aquilo.

Então, ele começou a encher os espaços em branco com uma tinta azul, irritante. Há muitos tons de azul, mas ele escolheu para a sua esferográfica, aquele. O irritante. Quando chegou à profissão, perguntou-me qual era.

Fiquei para ali, a pensar, a pensar… E disse-lhe: 

- Traço linhas. 

Não percebeu. Não percebeu, e tive de repetir. 

– Como? 
– Traço linhas. 

Não sei o que escreveu. Até ali, estive a espreitar o papel que ele colocou em cima do parapeito da janela, para poder escrever, e fui lendo o que lá tinha, mas depois de lhe dizer a minha profissão, começou a tapar o que estava escrito com a mão esquerda. Estive a aturá-lo por uns bons minutos e depois disse-lhe 

– Bom, já acabou? Desculpe, mas agora vou. Tenho ovos a estrelar. - 

Olhou para mim com aqueles olhos abertos que costumam pôr as pessoas quando ouvem alguma coisa esquisita e terminou.

Reparei então que tinha uma expressão triste. Fiquei muito aflita e disse-lhe 

– Quer um copo de água? Está muito calor… 

Pôs os olhos “não me chateie” e disse: - Não, obrigado. - Eu quis apagar a linha, mas já não fui a tempo…

A minha mãe teve alzheimer. Bem, não era, propriamente, chamaram-lhe demência senil. Há uma linha que separa, o lembrar do… esquecer. É como quando traças uma linha a negro numa tela branca. Se o fizeres com uma tinta negra muito diluída, ela começa a escorrer, a escorrer, e a metade branca vai conspurcar-se de negro e começa a mudar de côr.

Eu, tracei uma linha para esquecer o mal que me fizeram quando me cortaram o sonho com uma linha que eu tinha de seguir. Depois tracei outra linha à minha frente. Não vais transpor essa. Aqui deste lado estou eu.

Quando danço, traço linhas. As mãos vão escrevendo as notas de música no espaço com cores. São como serpentinas coloridas. Cada nota tem uma côr. Nunca tinhas reparado?

Quando terminei este livro tracei outra linha. 

É aquela que diz: - Não faças juízos de valor. Para isso seria preciso "calçar, os meus sapatos”.