domingo, 28 de junho de 2026

 

Essa palavra, liberdade

(escrito por Virgínia de Sá em abril de 2026)

 

Eu tinha acabado de fazer dezasseis anos. Numa terra estranha havia sete meses, no meu ventre enorme e pontiagudo, alguém mostrava inconformidade, agitando-se constantemente. Secretamente eu esperava ouvi-lo chorar, um sinal de que já comunicava comigo. O dia passou-se, e a noite. Ignorante eu de que já na terra mãe se pronunciava em forma de esperança sem temer os algozes, a palavra liberdade. Foi na manhã seguinte quando saía do duche, que a minha senhoria me chamou para que visse na televisão, que alguma coisa estranha e importante acontecia em Portugal.

Lembro a primeira imagem a surgir no ecrã. Nas paredes do Instituto Superior Técnico que tão bem conhecia por ser perto da minha casa, pichagens com a palavra LIBERDADE e jovens e menos jovens empunhando cartazes. Eu assistia boquiaberta, tentando compreender o que se passava, entre os comentários do jornalista em holandês e a minha senhoria que em vão na mesma língua, tentava explicar, e ao mesmo tempo perguntar o que ocorria. Tinha casado no dia dois de abril, após o envio da autorização escrita e reconhecida em notário, pela minha mãe.

Naquele tempo em Portugal, as raparigas podiam casar com autorização dos pais, desde que tivessem mais de catorze anos. Penso que isto já diz muita coisa. Desde que atingissem a puberdade, e pudessem procriar, o casamento era consentido. Para os rapazes, após os dezasseis anos. Era um processo diferente. Os rapazes atingiam a maioridade, com tudo o que isso implicava, após emancipação. As raparigas, passavam da tutela dos pais à tutela dos maridos. Assim, a minha mãe passou a obrigação de cuidar de mim para o meu marido, dois anos após o falecimento do meu pai. Não foi bem isso, o que aconteceu, mas essa já é outra história.

Naquela época, no mundo dava-se um renascimento, depois da guerra do Vietname, que terminava. Em Portugal ouvia-se falar pela primeira vez sem temor na palavra liberdade, tantas vezes associada deliberadamente e não de forma inocente a libertinagem e ao movimento hippie, que os “Velhos do Restelo”, conotavam com drogas e liberdade sexual, como se fosse apenas disso que se tratasse. E era com lavar a alma depois de uma coisa escura e opressiva. Para o povo português, a palavra liberdade era muito mais do que isso. Era a diferença entre centenas de presos políticos, encarcerados por terem uma ideia diferente, ou por terem tido a coragem de exprimir essa ideia, ou simplesmente por estarem a ler um livro proibido.

Era a diferença entre um casal de namorados poder beijar-se na rua, ou poder sequer pronunciar a tal palavra liberdade, num café, na escola, no trabalho, sem que te caísse em cima a famosa PIDE – Polícia de Intervenção e Defesa do Estado. E se intervinha! O medo sempre presente, parecia acabar ali naquele grito que surgia, como um dia seguinte.

E no dia seguinte, fui eu quem decidiu voltar a Portugal e fazer com que o meu filho nascesse aqui, mesmo antes de saber se era uma filha. O meu filho já podia ser livre.

Enfim, acreditava eu…

terça-feira, 23 de junho de 2026

 


” O que deve fazer alguém que não sabe o que fazer de si”

 

E foi assim. Acordei suada, nos lençóis que ainda cheiravam ao teu corpo, amarelos e gastos. Um odor entre o doce e o acre penetrava-me. Senti que as lágrimas afloravam outra vez com uma raiva de não saber, de não poder contê-las. O que vou agora fazer de mim?

Levantei-me tão rapidamente que senti uma vertigem. Quase me atirou ao chão. Lancei-me ao duche com a mesma raiva e a vontade de me lavar, lavar, e lavar até tirar o teu cheiro de mim, da minha casa, dos meus lençóis, das minhas gavetas e da minha vida. E que tal fazer um embrulho com todas as tuas merdas e lançar-lhe um fósforo e gasolina?

Não. Não vou fazer isso. A criatura pode precisar das roupas, dos livros. - E que tens tu a ver com isso, minha estúpida? - Não. Não vou fazer isso. Não está na minha natureza, porra! Meto tudo em malas. Malas? Não. Um dia vou necessitar de malas e terei de as comprar. A paciência tem limites. Leva em caixas. Em caixas de cartão. E vou pô-las bem longe dos lugares que frequento. Na garagem, talvez. 

Um dia vai aparecer por aqui com “a esposa” nova. Aquela que lhe vai deixar dizer “a nossa casa” e mais tarde “a minha casa”, até perceber que tudo não passou de um logro. E que foi só mais uma na contabilidade.

E agora? O que vou fazer de mim? Frequentar um site para solteiras? Marcar uns jantares para conhecer outras solitárias como eu? Atirar-me ao rio? Participar nos casados à primeira vista ou naqueles diálogos vazios de conteúdo com matronas ganhadoras do concurso das feias?

E agora o que vou fazer de mim depois de uma quase vida a fazer planos a dois que passaram a ser apenas planos de um?

sexta-feira, 19 de junho de 2026

 








Traz-me laranjas

(série momentos 25/05/2026)

 

Traz-me laranjas, amor

Traz-me laranjas

Ainda ontem, bebia-te de um trago

Mas hoje, meu amor

Traz-me laranjas

Numa ternura mansa

Que me faça aguar os olhos

Apenas as mãos, qual doce pétala

Que esvoaçando ao vento, venha leve

E as nuvens, onde a viagem nos transcreve.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

 



"Tudo era belo e nada doía"

(Texto de Virgínia de Sá a partir da frase de Kurt Vonnegut)


Entre as panelas, ela torcia o vestido em angústia. Lá fora havia música, e certamente as pessoas dançavam na quela noite de S. João. "Tudo era belo e nada doía". Assim imaginava a noite lá fora, onde as pessoas eram felizes. Para si, as panelas. Na cozinha já fumegava uma sopa para a família. Os olhos enchiam-se de água. O vestidito torcido entre as mãos contendo um soluço.

Qual Cinderela, assim se sentia dentro da cozinha onde o vapor começava a enevoar a pequena janela sobre o beco. 

- Podíamos ir ver o arraial - ouviu-se dizer. 

Como resposta ouviu uma espécie de rosnar. Arriscou mais uma vez. 

- Depois do jantar, quer dizer...

A voz do homem soou grossa e de repente pareceu-lhe maléfica.

- Tu queres é festa.

Não disse mais nada. Um dia hei-de sair por aquela janela e não voltarei nunca mais. Logo. Logo à noite vou continuar a ler o meu livro. Ainda bem que tenho um livro bom para ler. Aquele gato aprenderá a voar como uma gaivota. Eu também hei-de voar. Um dia tudo será belo e não vai doer. 




sexta-feira, 24 de abril de 2026

 


 


Branco é. Pessoa o põe.

 

Branco. A folha branca, nunca me meteu medo. Aliás, pelo contrário. Ausência

de cor. Ou junção de todas as cores. A cor da luz. A que todos os raios de luz

reflete, sem que absorva nenhum. A que se nos apresenta com a máxima

clareza. Do nada, tirar tudo. Fazer nascer a cor. A paisagem, a viagem na

magia das palavras. Copiar, disfarçar, não! Fazer diferente. Posso até gostar

da cor e do formato do sapato do vizinho, mas andar com o sapato alheio, não

é para mim. Por isso as fórmulas para escrever romance, sempre me

pareceram proibidas. Roubar as ideias dos outros. Deliberadamente. Sei lá.

Quando era miúda fiz uma cábula, para um teste de física e química. Escrevi-a

na mão esquerda. Estava tão aflita por estar a fazer uma coisa contra a

natureza que não consegui abrir a mão. É assim que me sinto ao pensar em

utilizar fórmulas estereotipadas para escrever. Como se estivesse a fazer

alguma coisa proibida. A roubar as ideias de alguém. De uma palavra que me

surge na contemplação de alguma coisa bela, fazer um texto, parece-me muito

mais limpo e honesto. Do branco fazer cor. Recriar, a partir da minha criação.

Uma vez vi peixes a dormir sobre a água. Nunca tinha imaginado tal e essa

imagem ficou-me gravada. Os peixes dormiam ao cimo da água na beira do rio,

como suspensos da manhã seguinte. Assim, sobre a água. Como ilustrações

num livro de histórias. Estou a beber a minha água, onde coloquei umas gotas

de sumo de limão e penso que o limão está a conspurcar a água, tornando-a

azeda e turva. Como a vida, nos dias em que por falta de luz a vejo sem graça.

E isto também é criação.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Água que corre




 

De repente olhei para dentro. Para dentro dos teus olhos e senti um rio. Uma água que corria, lavando. O coração acelerou, e alguma coisa que não acontecia há muito tempo, estava a renascer. Uma vontade enorme de sentir as tuas mãos, os teus dedos, de andar dali para fora e percorrer verdes e azuis e luzes. De outra vez meninos, tocar as almas lá dentro, sem máscaras, nem imposições. Perguntei-me. E isto que é?

quinta-feira, 26 de março de 2026

Jardim da Parada


JARDIM DA PARADA

Chego ao Jardim da Parada e sou logo cumprimentada por um ser de quatro pernas, que insiste em me cheirar de todos os ângulos. Deve sentir o odor do Faísca e da Foxy, perceptível para o simpático arraçado de Yorkshire, que cumprimento. 

Atento numa criatura magra, sexo masculino, cabelos escorridos e longos, que se senta e levanta alternadamente, numa mesa mais à frente. Pela forma como se movimenta, algo me diz que deve ser estrangeiro. Na minha mente indisciplinada, surge a palavra Norway e navego já. Ná! Da Noruega é o simpático vizinho gay, casado com aquele pãozinho (mal empregada escolha), que ontem veio distribuir bolinhos na cabeleireira. Distraída a pensar no desperdício, não dei pelo "estrangeiro", que entretanto julgo reconhecer de uma banda musical e está de partida.

Na dúvida antes que perca mais algum "personagem", decido marcar dois. 

Há um sexagenário com ar jovem, que lê o Jornal O Público, sem se interessar por quem está. Fato completo azul escuro, camisa branca. Uma sobrecasaca, azul noite, nas costas da cadeira. Meia preta no sapato de pele, tipo mocassim. Balbucia algo que não entendo. Lerá em voz alta...

Na mesa da minha direita, uma mulher vestida de verde, com cerca de sessenta e cinco anos, acaba de se sentar, e puxa logo um cinzeiro. Começa a titilar o telemóvel, como se não houvesse amanhã. Ao fim de uns segundos, parece ter sido invadida pela raiva, atingindo o telemóvel com o dedo cada vez com mais desespero. Aquilo provoca-me uma certa angústia. No intervalo das minhas observações, chega um homem, que fazendo ruído, desarruma todas as cadeiras de uma mesa em frente. Acaba por também arrastar uma cadeira da minha mesa, pede desculpa pelo incómodo, faz jus ao tique de esticar o pescoço, lembrando o Presidente Marcelo, que está de partida, e acaba por se sentar numa terceira mesa, de costas. De soslaio, vejo-o colocar sobre a mesa dois pares de óculos, usando uns deles para começar a dedilhar o telemóvel. 

"O do Público", a quem decido chamar Tomás, levanta-se distinto com o saco do jornal, sem olhar para ninguém. Chega outra "arrumadora de cadeiras", que se julga na obrigação de colocar todas no sítio. Por fim senta-se numa cadeira, telemóvel em punho e faz uma chamada. Na sua frente fumega uma grande chávena de chá de limão. Ouço vagamente uma conversa sobre alguém que toma conta de cães. Botas Coronel Tapioca e calça de ganga. Viajo até àquele coronel, que esperava por uma reforma que nunca chegava.

Resolvo colocar a minha capa de invisibilidade e seguir Tomás, antes que desapareça. Atravessa para a direita, e segue por uma rua com prédios de traça antiga, já remodelados. Introduz a chave na porta do prédio, que é aliás uma antiga vivenda de dois pisos, não sem antes dar uma olhadela à esquerda e à direita, como se comprovasse alguma coisa. Quando já se encontra a abrir a porta, o "estrangeiro" dos cabelos escorridos, surge por detrás e coloca-lhe a mão esquerda sobre a mão que segura a chave. Tomado de susto, Tomás salta, mas ao ver o importuno, sorri e convida-o a entrar à sua frente com um gesto amável. 

Ambos sobem uma escada de madeira nobre, encerada, com uma passadeira bordeaux colocada a meio. Dentro da minha cápsula de invisibilidade, subo atrás deles curiosa. Entramos num salão desprovido de móveis, à exceção de um grande caixão branco acolchoado a cetim brilhante, colocado ao centro, sobre uma carpete bordeaux. Pela janela um cortinado diáfano da mesma cor da tapeçaria, filtra uma luz irreal. Vejo Tomás deixar deslizar para o chão  saco do jornal, e entrar para o caixão num movimento ágil que mostra ser um gesto que pratica habitualmente. Deita-se com as mãos postas, como se orasse. O "estrangeiro" aproxima-se a passo de gato e ouço Tomás dizer-lhe numa voz sensual:

- Morde-me o pescoço!

É então que abro os olhos e percebo que aquele sol quentinho do Jardim da Parada, me fez passar pelas brasas. Também não admira. Acordei às 5H30. 

Texto construído para "CONTA-ME" com Marcantonio del Carlo