sexta-feira, 24 de abril de 2026

 


 


Branco é. Pessoa o põe.

 

Branco. A folha branca, nunca me meteu medo. Aliás, pelo contrário. Ausência

de cor. Ou junção de todas as cores. A cor da luz. A que todos os raios de luz

reflete, sem que absorva nenhum. A que se nos apresenta com a máxima

clareza. Do nada, tirar tudo. Fazer nascer a cor. A paisagem, a viagem na

magia das palavras. Copiar, disfarçar, não! Fazer diferente. Posso até gostar

da cor e do formato do sapato do vizinho, mas andar com o sapato alheio, não

é para mim. Por isso as fórmulas para escrever romance, sempre me

pareceram proibidas. Roubar as ideias dos outros. Deliberadamente. Sei lá.

Quando era miúda fiz uma cábula, para um teste de física e química. Escrevi-a

na mão esquerda. Estava tão aflita por estar a fazer uma coisa contra a

natureza que não consegui abrir a mão. É assim que me sinto ao pensar em

utilizar fórmulas estereotipadas para escrever. Como se estivesse a fazer

alguma coisa proibida. A roubar as ideias de alguém. De uma palavra que me

surge na contemplação de alguma coisa bela, fazer um texto, parece-me muito

mais limpo e honesto. Do branco fazer cor. Recriar, a partir da minha criação.

Uma vez vi peixes a dormir sobre a água. Nunca tinha imaginado tal e essa

imagem ficou-me gravada. Os peixes dormiam ao cimo da água na beira do rio,

como suspensos da manhã seguinte. Assim, sobre a água. Como ilustrações

num livro de histórias. Estou a beber a minha água, onde coloquei umas gotas

de sumo de limão e penso que o limão está a conspurcar a água, tornando-a

azeda e turva. Como a vida, nos dias em que por falta de luz a vejo sem graça.

E isto também é criação.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Água que corre




 

De repente olhei para dentro. Para dentro dos teus olhos e senti um rio. Uma água que corria, lavando. O coração acelerou, e alguma coisa que não acontecia há muito tempo, estava a renascer. Uma vontade enorme de sentir as tuas mãos, os teus dedos, de andar dali para fora e percorrer verdes e azuis e luzes. De outra vez meninos, tocar as almas lá dentro, sem máscaras, nem imposições. Perguntei-me. E isto que é?

quinta-feira, 26 de março de 2026

Jardim da Parada


JARDIM DA PARADA

Chego ao Jardim da Parada e sou logo cumprimentada por um ser de quatro pernas, que insiste em me cheirar de todos os ângulos. Deve sentir o odor do Faísca e da Foxy, perceptível para o simpático arraçado de Yorkshire, que cumprimento. 

Atento numa criatura magra, sexo masculino, cabelos escorridos e longos, que se senta e levanta alternadamente, numa mesa mais à frente. Pela forma como se movimenta, algo me diz que deve ser estrangeiro. Na minha mente indisciplinada, surge a palavra Norway e navego já. Ná! Da Noruega é o simpático vizinho gay, casado com aquele pãozinho (mal empregada escolha), que ontem veio distribuir bolinhos na cabeleireira. Distraída a pensar no desperdício, não dei pelo "estrangeiro", que entretanto julgo reconhecer de uma banda musical e está de partida.

Na dúvida antes que perca mais algum "personagem", decido marcar dois. 

Há um sexagenário com ar jovem, que lê o Jornal O Público, sem se interessar por quem está. Fato completo azul escuro, camisa branca. Uma sobrecasaca, azul noite, nas costas da cadeira. Meia preta no sapato de pele, tipo mocassim. Balbucia algo que não entendo. Lerá em voz alta...

Na mesa da minha direita, uma mulher vestida de verde, com cerca de sessenta e cinco anos, acaba de se sentar, e puxa logo um cinzeiro. Começa a titilar o telemóvel, como se não houvesse amanhã. Ao fim de uns segundos, parece ter sido invadida pela raiva, atingindo o telemóvel com o dedo cada vez com mais desespero. Aquilo provoca-me uma certa angústia. No intervalo das minhas observações, chega um homem, que fazendo ruído, desarruma todas as cadeiras de uma mesa em frente. Acaba por também arrastar uma cadeira da minha mesa, pede desculpa pelo incómodo, faz jus ao tique de esticar o pescoço, lembrando o Presidente Marcelo, que está de partida, e acaba por se sentar numa terceira mesa, de costas. De soslaio, vejo-o colocar sobre a mesa dois pares de óculos, usando uns deles para começar a dedilhar o telemóvel. 

"O do Público", a quem decido chamar Tomás, levanta-se distinto com o saco do jornal, sem olhar para ninguém. Chega outra "arrumadora de cadeiras", que se julga na obrigação de colocar todas no sítio. Por fim senta-se numa cadeira, telemóvel em punho e faz uma chamada. Na sua frente fumega uma grande chávena de chá de limão. Ouço vagamente uma conversa sobre alguém que toma conta de cães. Botas Coronel Tapioca e calça de ganga. Viajo até àquele coronel, que esperava por uma reforma que nunca chegava.

Resolvo colocar a minha capa de invisibilidade e seguir Tomás, antes que desapareça. Atravessa para a direita, e segue por uma rua com prédios de traça antiga, já remodelados. Introduz a chave na porta do prédio, que é aliás uma antiga vivenda de dois pisos, não sem antes dar uma olhadela à esquerda e à direita, como se comprovasse alguma coisa. Quando já se encontra a abrir a porta, o "estrangeiro" dos cabelos escorridos, surge por detrás e coloca-lhe a mão esquerda sobre a mão que segura a chave. Tomado de susto, Tomás salta, mas ao ver o importuno, sorri e convida-o a entrar à sua frente com um gesto amável. 

Ambos sobem uma escada de madeira nobre, encerada, com uma passadeira bordeaux colocada a meio. Dentro da minha cápsula de invisibilidade, subo atrás deles curiosa. Entramos num salão desprovido de móveis, à exceção de um grande caixão branco acolchoado a cetim brilhante, colocado ao centro, sobre uma carpete bordeaux. Pela janela um cortinado diáfano da mesma cor da tapeçaria, filtra uma luz irreal. Vejo Tomás deixar deslizar para o chão  saco do jornal, e entrar para o caixão num movimento ágil que mostra ser um gesto que pratica habitualmente. Deita-se com as mãos postas, como se orasse. O "estrangeiro" aproxima-se a passo de gato e ouço Tomás dizer-lhe numa voz sensual:

- Morde-me o pescoço!

É então que abro os olhos e percebo que aquele sol quentinho do Jardim da Parada, me fez passar pelas brasas. Também não admira. Acordei às 5H30. 

Texto construído para "CONTA-ME" com Marcantonio del Carlo

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026







Conversas de Sexagenários

O Aloendro


E eu a pensar que ainda estavas de perna estendida à sombra do campismo alentejano. Por aqui, só a natureza. Muita dela, morta, enche latões e latões de folhas secas e lixarada de jardim. Quinta feira, vem o Luís Santiago. Ator, mal pago, sem subsídios e bom companheiro, vem podar o aloendro gigante que já trepa ao telhado. Nele, as formigas fazem uma festa. Deve ser doce, digo ao Nuno, o meu amigo do Porto, que há mais de vinte anos ajudei a aceitar que não se vive tantos anos com alguém por pena ou conformismo. Mal sabia eu que ele haveria de me lembrar o mesmo vinte anos volvidos. Assim, cá te espero. Beijos.

sexta-feira, 25 de abril de 2025







 25 de abril 2025

Há-de ser a Liberdade


Ade. Sem h. Há-de ser a Liberdade. Pensaram eles. E pensaram bem.

Até onde a liberdade chegar. Escapava-se da prisão das palavras e saía fluída, solta, com cabelos ao vento, como um passeio de moto, esvoaçando as palavras pássaros entre vales e rios. 

Devorá-la. Havia que devorá-la com medo de que se perdesse e tudo voltasse atrás, ao tempo dos beijos escondidos, das saias até ao joelho, das mantilhas sobre os ombros. Das memórias antigas, dos puxões de cabelos, dos maridos ébrios, do sexo não consentido, da porrada, e do silêncio. Do calar o sofrimento. 

E depois o encontro. O encontro puro de irmãos a querer a mesma coisa. A coisa tão simples. Apenas ser igual a ti. Sem máscaras. Sem restrições. Sem amordaçar as palavras na boca e no carvão do lápis onde flui o mundo. De ti. Só de ti para ti e de ti para mim. Fluidez essa na liberdade de poder dizer o que sentires.

Virgínia de Sá


(em escrita criativa com Joaquim Semeano - exercício com as três ultimas letras da palavra liberdade)









 Tenho um Primo Convexo 

(25 de abril de 2025 em homenagem a José Afonso)


Quantos primos convexos, em redes de suor, preguiçosos, barrigudos adormecendo a liberdade esquecida, enquanto a terra treme e o primo que não é irmão, de nada se apercebe e fica balançando no ar.  Do alto da sua rede pede mais uma cerveja, enquanto o sonho vai, o homem só deseja. Enquanto a tarde cai, o homem boceja. Tenho um primo convexo que pouco ou nada almeja. Por entre as palmeiras, espera que o tempo seja. O meu primo convexo que pouco ou nada almeja, e tem sempre ao seu lado uma grade de cerveja. Passam por ele os dias, risos, futebóis, passam a romarias, pratos de caracóis, cresce-lhe uma alegria na parte frontal e a rede balança, com ele horizontal!

Texto escrito por Virgínia de Sá, em sessão de escrita criativa com Joaquim Semeano. Sugestão de exercício, Joaquim Semeano. 

Escolha da canção do Zeca, Virgínia de Sá.