quinta-feira, 26 de março de 2026

Jardim da Parada


JARDIM DA PARADA

Chego ao Jardim da Parada e sou logo cumprimentada por um ser de quatro pernas, que insiste em me cheirar de todos os ângulos. Deve sentir o odor do Faísca e da Foxy, perceptível para o simpático arraçado de Yorkshire, que cumprimento. 

Atento numa criatura magra, sexo masculino, cabelos escorridos e longos, que se senta e levanta alternadamente, numa mesa mais à frente. Pela forma como se movimenta, algo me diz que deve ser estrangeiro. Na minha mente indisciplinada, surge a palavra Norway e navego já. Ná! Da Noruega é o simpático vizinho gay, casado com aquele pãozinho (mal empregada escolha), que ontem veio distribuir bolinhos na cabeleireira. Distraída a pensar no desperdício, não dei pelo "estrangeiro", que entretanto julgo reconhecer de uma banda musical e está de partida.

Na dúvida antes que perca mais algum "personagem", decido marcar dois. 

Há um sexagenário com ar jovem, que lê o Jornal O Público, sem se interessar por quem está. Fato completo azul escuro, camisa branca. Uma sobrecasaca, azul noite, nas costas da cadeira. Meia preta no sapato de pele, tipo mocassim. Balbucia algo que não entendo. Lerá em voz alta...

Na mesa da minha direita, uma mulher vestida de verde, com cerca de sessenta e cinco anos, acaba de se sentar, e puxa logo um cinzeiro. Começa a titilar o telemóvel, como se não houvesse amanhã. Ao fim de uns segundos, parece ter sido invadida pela raiva, atingindo o telemóvel com o dedo cada vez com mais desespero. Aquilo provoca-me uma certa angústia. No intervalo das minhas observações, chega um homem, que fazendo ruído, desarruma todas as cadeiras de uma mesa em frente. Acaba por também arrastar uma cadeira da minha mesa, pede desculpa pelo incómodo, faz jus ao tique de esticar o pescoço, lembrando o Presidente Marcelo, que está de partida, e acaba por se sentar numa terceira mesa, de costas. De soslaio, vejo-o colocar sobre a mesa dois pares de óculos, usando uns deles para começar a dedilhar o telemóvel. 

"O do Público", a quem decido chamar Tomás, levanta-se distinto com o saco do jornal, sem olhar para ninguém. Chega outra "arrumadora de cadeiras", que se julga na obrigação de colocar todas no sítio. Por fim senta-se numa cadeira, telemóvel em punho e faz uma chamada. Na sua frente fumega uma grande chávena de chá de limão. Ouço vagamente uma conversa sobre alguém que toma conta de cães. Botas Coronel Tapioca e calça de ganga. Viajo até àquele coronel, que esperava por uma reforma que nunca chegava.

Resolvo colocar a minha capa de invisibilidade e seguir Tomás, antes que desapareça. Atravessa para a direita, e segue por uma rua com prédios de traça antiga, já remodelados. Introduz a chave na porta do prédio, que é aliás uma antiga vivenda de dois pisos, não sem antes dar uma olhadela à esquerda e à direita, como se comprovasse alguma coisa. Quando já se encontra a abrir a porta, o "estrangeiro" dos cabelos escorridos, surge por detrás e coloca-lhe a mão esquerda sobre a mão que segura a chave. Tomado de susto, Tomás salta, mas ao ver o importuno, sorri e convida-o a entrar à sua frente com um gesto amável. 

Ambos sobem uma escada de madeira nobre, encerada, com uma passadeira bordeaux colocada a meio. Dentro da minha cápsula de invisibilidade, subo atrás deles curiosa. Entramos num salão desprovido de móveis, à exceção de um grande caixão branco acolchoado a cetim brilhante, colocado ao centro, sobre uma carpete bordeaux. Pela janela um cortinado diáfano da mesma cor da tapeçaria, filtra uma luz irreal. Vejo Tomás deixar deslizar para o chão  saco do jornal, e entrar para o caixão num movimento ágil que mostra ser um gesto que pratica habitualmente. Deita-se com as mãos postas, como se orasse. O "estrangeiro" aproxima-se a passo de gato e ouço Tomás dizer-lhe numa voz sensual:

- Morde-me o pescoço!

É então que abro os olhos e percebo que aquele sol quentinho do Jardim da Parada, me fez passar pelas brasas. Também não admira. Acordei às 5H30. 

Texto construído para "CONTA-ME" com Marcantonio del Carlo

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026







Conversas de Sexagenários

O Aloendro


E eu a pensar que ainda estavas de perna estendida à sombra do campismo alentejano. Por aqui, só a natureza. Muita dela, morta, enche latões e latões de folhas secas e lixarada de jardim. Quinta feira, vem o Luís Santiago. Ator, mal pago, sem subsídios e bom companheiro, vem podar o aloendro gigante que já trepa ao telhado. Nele, as formigas fazem uma festa. Deve ser doce, digo ao Nuno, o meu amigo do Porto, que há mais de vinte anos ajudei a aceitar que não se vive tantos anos com alguém por pena ou conformismo. Mal sabia eu que ele haveria de me lembrar o mesmo vinte anos volvidos. Assim, cá te espero. Beijos.

sexta-feira, 25 de abril de 2025







 25 de abril 2025

Há-de ser a Liberdade


Ade. Sem h. Há-de ser a Liberdade. Pensaram eles. E pensaram bem.

Até onde a liberdade chegar. Escapava-se da prisão das palavras e saía fluída, solta, com cabelos ao vento, como um passeio de moto, esvoaçando as palavras pássaros entre vales e rios. 

Devorá-la. Havia que devorá-la com medo de que se perdesse e tudo voltasse atrás, ao tempo dos beijos escondidos, das saias até ao joelho, das mantilhas sobre os ombros. Das memórias antigas, dos puxões de cabelos, dos maridos ébrios, do sexo não consentido, da porrada, e do silêncio. Do calar o sofrimento. 

E depois o encontro. O encontro puro de irmãos a querer a mesma coisa. A coisa tão simples. Apenas ser igual a ti. Sem máscaras. Sem restrições. Sem amordaçar as palavras na boca e no carvão do lápis onde flui o mundo. De ti. Só de ti para ti e de ti para mim. Fluidez essa na liberdade de poder dizer o que sentires.

Virgínia de Sá


(em escrita criativa com Joaquim Semeano - exercício com as três ultimas letras da palavra liberdade)









 Tenho um Primo Convexo 

(25 de abril de 2025 em homenagem a José Afonso)


Quantos primos convexos, em redes de suor, preguiçosos, barrigudos adormecendo a liberdade esquecida, enquanto a terra treme e o primo que não é irmão, de nada se apercebe e fica balançando no ar.  Do alto da sua rede pede mais uma cerveja, enquanto o sonho vai, o homem só deseja. Enquanto a tarde cai, o homem boceja. Tenho um primo convexo que pouco ou nada almeja. Por entre as palmeiras, espera que o tempo seja. O meu primo convexo que pouco ou nada almeja, e tem sempre ao seu lado uma grade de cerveja. Passam por ele os dias, risos, futebóis, passam a romarias, pratos de caracóis, cresce-lhe uma alegria na parte frontal e a rede balança, com ele horizontal!

Texto escrito por Virgínia de Sá, em sessão de escrita criativa com Joaquim Semeano. Sugestão de exercício, Joaquim Semeano. 

Escolha da canção do Zeca, Virgínia de Sá.

domingo, 9 de março de 2025

                                                  

Desafio para conto

Grupo de escrita criativa - Lara Barradas
Texto de Virgínia de Sá
Tema: Um objeto da casa que se revolta por ser maltratado


Pendurei-o de cabeça para baixo, que é como quem diz de peitilho para baixo, ao sol. Uma gaveta cheia deles, mas eu gosto é daquele. É mais alegre, verde alface. Contém em si o amarelo que traz, tal como o sol, alegria e boa disposição. 

O pior é quando, passados três ou quatro dias, começa a dar sinais de uso. Um pingo aqui, outro acolá. Além uma nódoa. Cruzes canhoto. Que raio de culpa terá o tal canhoto, se aqui ninguém escreve com a mão esquerda. Bom, eu até voto à esquerda, mas…

Daqui a pouco venho virá-lo outra vez. Um bocadinho de sol, nunca fez mal a ninguém e lá está. É a alegria que entra novamente na cozinha junto com ele. 

Olha, já está seco. Vou já colocá-lo! Quentinho ainda é melhor. Nem é preciso passar a ferro. Isso era dantes. 

Quem havia de dizer que me ia começar a arreliar? Quis dar a volta aos atilhos e atá-lo à frente na segunda volta, mas as barrigadas do Natal, com doces e tudo, ainda estão presentes e não consigo senão fazer o laço atrás, depois de lhe dar dois valentes puxões, já aborrecida. 

Ouço então uma voz masculina, vinda do lado direito baixo. "Ouve lá, estás a dar puxões a quem?". Volto-me de repente para trás e logo em seguida para a frente, porque não vejo ninguém que possa ter falado. Eu disse ninguém. Não disse nada. Obviamente, porque nada, não fala. "Vê se estás quieta, Já me deste outro puxão". Olho para o sítio de onde vem a voz. Direitinha de dentro do bolso do avental! "Ai mas que coisa", penso. "Agora os aventais falam?", murmuro, colocando a minha cara de parva número dois, e procurando atrás da porta da cozinha e na outra que dá para o corredor, uma explicação viável. 

Decido dar dois novos grandes puxões ao avental, desta vez intencionais. "Aiiiiii". Ouço gritar. "Já chega, não? Desta maneira, salto daqui e vais acabar cheia de nódoas, e logo hoje que é salmão e o grelhado espirra para todo  lado. 

Desta vez dou um salto para trás. Então o raio do avental além de falar, agora grita e ameaça? Decido responder-lhe: "Estás a gritar comigo, ó pedaço de trapo?. Olha que te reformo. Ou então passas para a gaveta dos panos da limpeza que é um gosto!" Inicia-se então um diálogo completamente inusitado. E é assim que acabo por pensar em reformar o meu avental favorito.

Eis senão quando me tocam a campainha. É o pintor para me dizer que acabou de pintar o portão e já se vai embora. Ele sai e chego-me ao portão para o fechar à chave. Infelizmente tropeço em alguma coisa e acabo por encostar-me demasiado. O avental verde alface tem agora riscas bordeaux. "Olha pronto, agora vais mesmo para o lixo". Ouço então uma voz sensual: "Não precisas de um aventalzinho simpático para as tuas pinturas?".

Fiquei a pensar naquilo e acabei por o promover. Passou de avental de cozinheira a avental de pintora. Com tanta conversa, ainda é capaz de me inspirar para novas pinturas.







segunda-feira, 27 de janeiro de 2025



ESCRITA CRIATIVA Para desafiar a imaginação e escrever pequenas histórias 

com Joaquim Semeano


Escolhi uma Personagem, imaginei-a, assim como o Lugar onde ela entra

o conto...


Ora aí está! Exatamente como imaginei. Todos sujos de molho, a escorrer pelas barbas. As figuras principais já com os fatos todos manchados. A mesa enorme, de comprida. Podia parecer a última ceia, não fossem os porcos que lá estão sentados. O da direita, arrota. A princesa limpa os beiços com as costas da mão. O "chefe" ajeita a coroa e o molho escorre pelas mangas. Eu espreito por detrás do cortinado de veludo vermelho. Ajeito o meu chapéu de três bicos e preparo-me para entrar.

"Tenho de os fazer rir", penso! ou ainda acabo devorado como aqueles pedaços de javali, que vão levando aos beiços.

"Aqui vai disto" digo num passo de cavalo, atravessando a sala de um lado ao outro. 

Suspendem o javali no ar a escorrer molho, mas não há nenhuma reação. "Rápido! não reagiram", penso. E dou um salto para cima da mesa. Quase caio na bandeja cheia de castanhas com que acompanham a carne. 

"Olá, olá, seus porquinhos, qual deles o mais sujinho" O carrasco na ponta, arrota e dá uma gargalhada. "Menos mal. Já conquistei o mais importante". O padre baba-se. O cavaleiro retira o elmo e quase enfia as penas na sopa de nabos. Vou até à ponta da mesa e começo a trabalhar os malabares fitando a princesa que sorri por entre o molho. "Mais uma", penso. "Agora a mãe"... Deito-me de costas frente ao prato dela e começo a pedalar ofegante. A rainha também sorri. Salto então para o chão, e fazendo três vénias ao rei, digo: " O rei dos porcos!" apresentando-o com mais uma vénia aos outros convidados. O carrasco levanta o machado. Sinto-me empalidecer e já penso que vou desmaiar. O próprio Robin dos Bosques que acaba de assomar ao varandim, parece ajeitar a besta para disparar frente a mim.

É quando aperto a bolinha do terceiro bico do chapéu, mesmo a tempo de me teletransportar e cair no palco do cine teatro S. João. 

Virgínia de Sá