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terça-feira, 25 de agosto de 2026
domingo, 28 de junho de 2026
Essa
palavra, liberdade
(escrito
por Virgínia de Sá em abril de 2026)
Eu tinha acabado de fazer dezasseis
anos. Numa terra estranha havia sete meses, no meu ventre enorme e pontiagudo,
alguém mostrava inconformidade, agitando-se constantemente. Secretamente eu esperava
ouvi-lo chorar, um sinal de que já comunicava comigo. O dia passou-se, e a
noite. Ignorante eu de que já na terra mãe se pronunciava em forma de esperança
sem temer os algozes, a palavra liberdade. Foi na manhã seguinte quando saía do
duche, que a minha senhoria me chamou para que visse na televisão, que alguma
coisa estranha e importante acontecia em Portugal.
Lembro a primeira imagem a
surgir no ecrã. Nas paredes do Instituto Superior Técnico que tão bem conhecia
por ser perto da minha casa, pichagens com a palavra LIBERDADE e jovens e menos
jovens empunhando cartazes. Eu assistia boquiaberta, tentando compreender o que
se passava, entre os comentários do jornalista em holandês e a minha senhoria
que em vão na mesma língua, tentava explicar, e ao mesmo tempo perguntar o que
ocorria. Tinha casado no dia dois de abril, após o envio da autorização escrita
e reconhecida em notário, pela minha mãe.
Naquele tempo em Portugal, as
raparigas podiam casar com autorização dos pais, desde que tivessem mais de
catorze anos. Penso que isto já diz muita coisa. Desde que atingissem a
puberdade, e pudessem procriar, o casamento era consentido. Para os rapazes,
após os dezasseis anos. Era um processo diferente. Os rapazes atingiam a
maioridade, com tudo o que isso implicava, após emancipação. As raparigas,
passavam da tutela dos pais à tutela dos maridos. Assim, a minha mãe passou a
obrigação de cuidar de mim para o meu marido, dois anos após o falecimento do
meu pai. Não foi bem isso, o que aconteceu, mas essa já é outra história.
Naquela época, no mundo
dava-se um renascimento, depois da guerra do Vietname, que terminava. Em
Portugal ouvia-se falar pela primeira vez sem temor na palavra liberdade,
tantas vezes associada deliberadamente e não de forma inocente a libertinagem e
ao movimento hippie, que os “Velhos do Restelo”, conotavam com drogas e
liberdade sexual, como se fosse apenas disso que se tratasse. E era com lavar a
alma depois de uma coisa escura e opressiva. Para o povo português, a palavra
liberdade era muito mais do que isso. Era a diferença entre centenas de presos
políticos, encarcerados por terem uma ideia diferente, ou por terem tido a
coragem de exprimir essa ideia, ou simplesmente por estarem a ler um livro
proibido.
Era a diferença entre um casal
de namorados poder beijar-se na rua, ou poder sequer pronunciar a tal palavra
liberdade, num café, na escola, no trabalho, sem que te caísse em cima a famosa
PIDE – Polícia de Intervenção e Defesa do Estado. E se intervinha! O medo
sempre presente, parecia acabar ali naquele grito que surgia, como um dia
seguinte.
E no dia seguinte, fui eu quem
decidiu voltar a Portugal e fazer com que o meu filho nascesse aqui, mesmo
antes de saber se era uma filha. O meu filho já podia ser livre.
Enfim, acreditava eu…
terça-feira, 23 de junho de 2026
” O que deve fazer alguém que não sabe o que fazer de
si”
E foi assim. Acordei suada, nos lençóis que ainda
cheiravam ao teu corpo, amarelos e gastos. Um odor entre o doce e o acre
penetrava-me. Senti que as lágrimas afloravam outra vez com uma raiva de não
saber, de não poder contê-las. O que vou agora fazer de mim?
Levantei-me tão rapidamente que senti uma vertigem. Quase me atirou ao chão. Lancei-me ao duche com a mesma raiva e a vontade de me lavar, lavar, e lavar até tirar o teu cheiro de mim, da minha casa, dos meus lençóis, das minhas gavetas e da minha vida. E que tal fazer um embrulho com todas as tuas merdas e lançar-lhe um fósforo e gasolina?
Não. Não vou fazer isso. A criatura pode precisar das roupas, dos livros. - E que tens tu a ver com isso, minha estúpida? - Não. Não vou fazer isso. Não está na minha natureza, porra! Meto tudo em malas. Malas? Não. Um dia vou necessitar de malas e terei de as comprar. A paciência tem limites. Leva em caixas. Em caixas de cartão. E vou pô-las bem longe dos lugares que frequento. Na garagem, talvez.
Um dia vai aparecer por aqui com “a esposa” nova.
Aquela que lhe vai deixar dizer “a nossa casa” e mais tarde “a minha casa”, até
perceber que tudo não passou de um logro. E que foi só mais uma na
contabilidade.
E agora? O que vou fazer de mim? Frequentar um site para solteiras? Marcar uns jantares para conhecer outras solitárias como eu? Atirar-me ao rio? Participar nos casados à primeira vista ou naqueles diálogos vazios de conteúdo com matronas ganhadoras do concurso das feias?
E agora o que vou fazer de mim depois de uma quase vida a fazer planos a dois que passaram a ser apenas planos de um?
sexta-feira, 19 de junho de 2026
Traz-me laranjas
(série momentos 25/05/2026)
Traz-me laranjas, amor
Traz-me laranjas
Ainda ontem, bebia-te de um trago
Mas hoje, meu amor
Traz-me laranjas
Numa ternura mansa
Que me faça aguar os olhos
Apenas as mãos, qual doce pétala
Que esvoaçando ao vento, venha leve
E as nuvens, onde a viagem nos transcreve.
sexta-feira, 29 de maio de 2026
"Tudo era belo e nada doía"
(Texto de Virgínia de Sá a partir da frase de Kurt Vonnegut)
Entre as panelas, ela torcia o vestido em angústia. Lá fora havia música, e certamente as pessoas dançavam na quela noite de S. João. "Tudo era belo e nada doía". Assim imaginava a noite lá fora, onde as pessoas eram felizes. Para si, as panelas. Na cozinha já fumegava uma sopa para a família. Os olhos enchiam-se de água. O vestidito torcido entre as mãos contendo um soluço.
Qual Cinderela, assim se sentia dentro da cozinha onde o vapor começava a enevoar a pequena janela sobre o beco.
- Podíamos ir ver o arraial - ouviu-se dizer.
Como resposta ouviu uma espécie de rosnar. Arriscou mais uma vez.
- Depois do jantar, quer dizer...
A voz do homem soou grossa e de repente pareceu-lhe maléfica.
- Tu queres é festa.
Não disse mais nada. Um dia hei-de sair por aquela janela e não voltarei nunca mais. Logo. Logo à noite vou continuar a ler o meu livro. Ainda bem que tenho um livro bom para ler. Aquele gato aprenderá a voar como uma gaivota. Eu também hei-de voar. Um dia tudo será belo e não vai doer.
sexta-feira, 24 de abril de 2026
Branco é. Pessoa o põe.
Branco. A folha branca, nunca me meteu medo. Aliás, pelo contrário. Ausência
de cor. Ou junção de todas as cores. A cor da luz. A que todos os raios de luz
reflete, sem que absorva nenhum. A que se nos apresenta com a máxima
clareza. Do nada, tirar tudo. Fazer nascer a cor. A paisagem, a viagem na
magia das palavras. Copiar, disfarçar, não! Fazer diferente. Posso até gostar
da cor e do formato do sapato do vizinho, mas andar com o sapato alheio, não
é para mim. Por isso as fórmulas para escrever romance, sempre me
pareceram proibidas. Roubar as ideias dos outros. Deliberadamente. Sei lá.
Quando era miúda fiz uma cábula, para um teste de física e química. Escrevi-a
na mão esquerda. Estava tão aflita por estar a fazer uma coisa contra a
natureza que não consegui abrir a mão. É assim que me sinto ao pensar em
utilizar fórmulas estereotipadas para escrever. Como se estivesse a fazer
alguma coisa proibida. A roubar as ideias de alguém. De uma palavra que me
surge na contemplação de alguma coisa bela, fazer um texto, parece-me muito
mais limpo e honesto. Do branco fazer cor. Recriar, a partir da minha criação.
Uma vez vi peixes a dormir sobre a água. Nunca tinha imaginado tal e essa
imagem ficou-me gravada. Os peixes dormiam ao cimo da água na beira do rio,
como suspensos da manhã seguinte. Assim, sobre a água. Como ilustrações
num livro de histórias. Estou a beber a minha água, onde coloquei umas gotas
de sumo de limão e penso que o limão está a conspurcar a água, tornando-a
azeda e turva. Como a vida, nos dias em que por falta de luz a vejo sem graça.
E isto também é criação.
quarta-feira, 22 de abril de 2026
Água que corre
De repente olhei para dentro. Para
dentro dos teus olhos e senti um rio. Uma água que corria, lavando. O coração
acelerou, e alguma coisa que não acontecia há muito tempo, estava a renascer.
Uma vontade enorme de sentir as tuas mãos, os teus dedos, de andar dali para
fora e percorrer verdes e azuis e luzes. De outra vez meninos, tocar as almas
lá dentro, sem máscaras, nem imposições. Perguntei-me. E isto que é?
quinta-feira, 26 de março de 2026
Jardim da Parada
JARDIM DA PARADA
Atento numa criatura magra, sexo masculino, cabelos escorridos e longos, que se senta e levanta alternadamente, numa mesa mais à frente. Pela forma como se movimenta, algo me diz que deve ser estrangeiro. Na minha mente indisciplinada, surge a palavra Norway e navego já. Ná! Da Noruega é o simpático vizinho gay, casado com aquele pãozinho (mal empregada escolha), que ontem veio distribuir bolinhos na cabeleireira. Distraída a pensar no desperdício, não dei pelo "estrangeiro", que entretanto julgo reconhecer de uma banda musical e está de partida.
Na dúvida antes que perca mais algum "personagem", decido marcar dois.
Há um sexagenário com ar jovem, que lê o Jornal O Público, sem se interessar por quem está. Fato completo azul escuro, camisa branca. Uma sobrecasaca, azul noite, nas costas da cadeira. Meia preta no sapato de pele, tipo mocassim. Balbucia algo que não entendo. Lerá em voz alta...
Na mesa da minha direita, uma mulher vestida de verde, com cerca de sessenta e cinco anos, acaba de se sentar, e puxa logo um cinzeiro. Começa a titilar o telemóvel, como se não houvesse amanhã. Ao fim de uns segundos, parece ter sido invadida pela raiva, atingindo o telemóvel com o dedo cada vez com mais desespero. Aquilo provoca-me uma certa angústia. No intervalo das minhas observações, chega um homem, que fazendo ruído, desarruma todas as cadeiras de uma mesa em frente. Acaba por também arrastar uma cadeira da minha mesa, pede desculpa pelo incómodo, faz jus ao tique de esticar o pescoço, lembrando o Presidente Marcelo, que está de partida, e acaba por se sentar numa terceira mesa, de costas. De soslaio, vejo-o colocar sobre a mesa dois pares de óculos, usando uns deles para começar a dedilhar o telemóvel.
Resolvo colocar a minha capa de invisibilidade e seguir Tomás, antes que desapareça. Atravessa para a direita, e segue por uma rua com prédios de traça antiga, já remodelados. Introduz a chave na porta do prédio, que é aliás uma antiga vivenda de dois pisos, não sem antes dar uma olhadela à esquerda e à direita, como se comprovasse alguma coisa. Quando já se encontra a abrir a porta, o "estrangeiro" dos cabelos escorridos, surge por detrás e coloca-lhe a mão esquerda sobre a mão que segura a chave. Tomado de susto, Tomás salta, mas ao ver o importuno, sorri e convida-o a entrar à sua frente com um gesto amável.
Ambos sobem uma escada de madeira nobre, encerada, com uma passadeira bordeaux colocada a meio. Dentro da minha cápsula de invisibilidade, subo atrás deles curiosa. Entramos num salão desprovido de móveis, à exceção de um grande caixão branco acolchoado a cetim brilhante, colocado ao centro, sobre uma carpete bordeaux. Pela janela um cortinado diáfano da mesma cor da tapeçaria, filtra uma luz irreal. Vejo Tomás deixar deslizar para o chão saco do jornal, e entrar para o caixão num movimento ágil que mostra ser um gesto que pratica habitualmente. Deita-se com as mãos postas, como se orasse. O "estrangeiro" aproxima-se a passo de gato e ouço Tomás dizer-lhe numa voz sensual:
- Morde-me o pescoço!
É então que abro os olhos e percebo que aquele sol quentinho do Jardim da Parada, me fez passar pelas brasas. Também não admira. Acordei às 5H30.
Texto construído para "CONTA-ME" com Marcantonio del Carlo
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
Conversas de Sexagenários
O Aloendro
E eu a pensar que ainda estavas de perna estendida à sombra do campismo alentejano. Por aqui, só a natureza. Muita dela, morta, enche latões e latões de folhas secas e lixarada de jardim. Quinta feira, vem o Luís Santiago. Ator, mal pago, sem subsídios e bom companheiro, vem podar o aloendro gigante que já trepa ao telhado. Nele, as formigas fazem uma festa. Deve ser doce, digo ao Nuno, o meu amigo do Porto, que há mais de vinte anos ajudei a aceitar que não se vive tantos anos com alguém por pena ou conformismo. Mal sabia eu que ele haveria de me lembrar o mesmo vinte anos volvidos. Assim, cá te espero. Beijos.


