Chego ao Jardim da Parada e sou logo cumprimentada por um ser de quatro pernas, que insiste em me cheirar de todos os ângulos. Deve sentir o odor do Faísca e da Foxy, perceptível para o simpático arraçado de Yorkshire, que cumprimento.
Atento numa criatura magra, sexo masculino, cabelos escorridos e longos, que se senta e levanta alternadamente, numa mesa mais à frente. Pela forma como se movimenta, algo me diz que deve ser estrangeiro. Na minha mente indisciplinada, surge a palavra Norway e navego já. Ná! Da Noruega é o simpático vizinho gay, casado com aquele pãozinho (mal empregada escolha), que ontem veio distribuir bolinhos na cabeleireira. Distraída a pensar no desperdício, não dei pelo "estrangeiro", que entretanto julgo reconhecer de uma banda musical e está de partida.
Na dúvida antes que perca mais algum "personagem", decido marcar dois.
Há um sexagenário com ar jovem, que lê o Jornal O Público, sem se interessar por quem está. Fato completo azul escuro, camisa branca. Uma sobrecasaca, azul noite, nas costas da cadeira. Meia preta no sapato de pele, tipo mocassim. Balbucia algo que não entendo. Lerá em voz alta...
Na mesa da minha direita, uma mulher vestida de verde, com cerca de sessenta e cinco anos, acaba de se sentar, e puxa logo um cinzeiro. Começa a titilar o telemóvel, como se não houvesse amanhã. Ao fim de uns segundos, parece ter sido invadida pela raiva, atingindo o telemóvel com o dedo cada vez com mais desespero. Aquilo provoca-me uma certa angústia. No intervalo das minhas observações, chega um homem, que fazendo ruído, desarruma todas as cadeiras de uma mesa em frente. Acaba por também arrastar uma cadeira da minha mesa, pede desculpa pelo incómodo, faz jus ao tique de esticar o pescoço, lembrando o Presidente Marcelo, que está de partida, e acaba por se sentar numa terceira mesa, de costas. De soslaio, vejo-o colocar sobre a mesa dois pares de óculos, usando uns deles para começar a dedilhar o telemóvel.
"O do Público", a quem decido chamar Tomás, levanta-se distinto com o saco do jornal, sem olhar para ninguém. Chega outra "arrumadora de cadeiras", que se julga na obrigação de colocar todas no sítio. Por fim senta-se numa cadeira, telemóvel em punho e faz uma chamada. Na sua frente fumega uma grande chávena de chá de limão. Ouço vagamente uma conversa sobre alguém que toma conta de cães. Botas Coronel Tapioca e calça de ganga. Viajo até àquele coronel, que esperava por uma reforma que nunca chegava.
Resolvo colocar a minha capa de invisibilidade e seguir Tomás, antes que desapareça. Atravessa para a direita, e segue por uma rua com prédios de traça antiga, já remodelados. Introduz a chave na porta do prédio, que é aliás uma antiga vivenda de dois pisos, não sem antes dar uma olhadela à esquerda e à direita, como se comprovasse alguma coisa. Quando já se encontra a abrir a porta, o "estrangeiro" dos cabelos escorridos, surge por detrás e coloca-lhe a mão esquerda sobre a mão que segura a chave. Tomado de susto, Tomás salta, mas ao ver o importuno, sorri e convida-o a entrar à sua frente com um gesto amável.
Ambos sobem uma escada de madeira nobre, encerada, com uma passadeira bordeaux colocada a meio. Dentro da minha cápsula de invisibilidade, subo atrás deles curiosa. Entramos num salão desprovido de móveis, à exceção de um grande caixão branco acolchoado a cetim brilhante, colocado ao centro, sobre uma carpete bordeaux. Pela janela um cortinado diáfano da mesma cor da tapeçaria, filtra uma luz irreal. Vejo Tomás deixar deslizar para o chão saco do jornal, e entrar para o caixão num movimento ágil que mostra ser um gesto que pratica habitualmente. Deita-se com as mãos postas, como se orasse. O "estrangeiro" aproxima-se a passo de gato e ouço Tomás dizer-lhe numa voz sensual:
- Morde-me o pescoço!
É então que abro os olhos e percebo que aquele sol quentinho do Jardim da Parada, me fez passar pelas brasas. Também não admira. Acordei às 5H30.
Texto construído para "CONTA-ME" com Marcantonio del Carlo
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