terça-feira, 23 de junho de 2026

 


” O que deve fazer alguém que não sabe o que fazer de si”

 

E foi assim. Acordei suada, nos lençóis que ainda cheiravam ao teu corpo, amarelos e gastos. Um odor entre o doce e o acre penetrava-me. Senti que as lágrimas afloravam outra vez com uma raiva de não saber, de não poder contê-las. O que vou agora fazer de mim?

Levantei-me tão rapidamente que senti uma vertigem. Quase me atirou ao chão. Lancei-me ao duche com a mesma raiva e a vontade de me lavar, lavar, e lavar até tirar o teu cheiro de mim, da minha casa, dos meus lençóis, das minhas gavetas e da minha vida. E que tal fazer um embrulho com todas as tuas merdas e lançar-lhe um fósforo e gasolina?

Não. Não vou fazer isso. A criatura pode precisar das roupas, dos livros. - E que tens tu a ver com isso, minha estúpida? - Não. Não vou fazer isso. Não está na minha natureza, porra! Meto tudo em malas. Malas? Não. Um dia vou necessitar de malas e terei de as comprar. A paciência tem limites. Leva em caixas. Em caixas de cartão. E vou pô-las bem longe dos lugares que frequento. Na garagem, talvez. 

Um dia vai aparecer por aqui com “a esposa” nova. Aquela que lhe vai deixar dizer “a nossa casa” e mais tarde “a minha casa”, até perceber que tudo não passou de um logro. E que foi só mais uma na contabilidade.

E agora? O que vou fazer de mim? Frequentar um site para solteiras? Marcar uns jantares para conhecer outras solitárias como eu? Atirar-me ao rio? Participar nos casados à primeira vista ou naqueles diálogos vazios de conteúdo com matronas ganhadoras do concurso das feias?

E agora o que vou fazer de mim depois de uma quase vida a fazer planos a dois que passaram a ser apenas planos de um?

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