Essa
palavra, liberdade
(escrito
por Virgínia de Sá em abril de 2026)
Eu tinha acabado de fazer dezasseis
anos. Numa terra estranha havia sete meses, no meu ventre enorme e pontiagudo,
alguém mostrava inconformidade, agitando-se constantemente. Secretamente eu esperava
ouvi-lo chorar, um sinal de que já comunicava comigo. O dia passou-se, e a
noite. Ignorante eu de que já na terra mãe se pronunciava em forma de esperança
sem temer os algozes, a palavra liberdade. Foi na manhã seguinte quando saía do
duche, que a minha senhoria me chamou para que visse na televisão, que alguma
coisa estranha e importante acontecia em Portugal.
Lembro a primeira imagem a
surgir no ecrã. Nas paredes do Instituto Superior Técnico que tão bem conhecia
por ser perto da minha casa, pichagens com a palavra LIBERDADE e jovens e menos
jovens empunhando cartazes. Eu assistia boquiaberta, tentando compreender o que
se passava, entre os comentários do jornalista em holandês e a minha senhoria
que em vão na mesma língua, tentava explicar, e ao mesmo tempo perguntar o que
ocorria. Tinha casado no dia dois de abril, após o envio da autorização escrita
e reconhecida em notário, pela minha mãe.
Naquele tempo em Portugal, as
raparigas podiam casar com autorização dos pais, desde que tivessem mais de
catorze anos. Penso que isto já diz muita coisa. Desde que atingissem a
puberdade, e pudessem procriar, o casamento era consentido. Para os rapazes,
após os dezasseis anos. Era um processo diferente. Os rapazes atingiam a
maioridade, com tudo o que isso implicava, após emancipação. As raparigas,
passavam da tutela dos pais à tutela dos maridos. Assim, a minha mãe passou a
obrigação de cuidar de mim para o meu marido, dois anos após o falecimento do
meu pai. Não foi bem isso, o que aconteceu, mas essa já é outra história.
Naquela época, no mundo
dava-se um renascimento, depois da guerra do Vietname, que terminava. Em
Portugal ouvia-se falar pela primeira vez sem temor na palavra liberdade,
tantas vezes associada deliberadamente e não de forma inocente a libertinagem e
ao movimento hippie, que os “Velhos do Restelo”, conotavam com drogas e
liberdade sexual, como se fosse apenas disso que se tratasse. E era com lavar a
alma depois de uma coisa escura e opressiva. Para o povo português, a palavra
liberdade era muito mais do que isso. Era a diferença entre centenas de presos
políticos, encarcerados por terem uma ideia diferente, ou por terem tido a
coragem de exprimir essa ideia, ou simplesmente por estarem a ler um livro
proibido.
Era a diferença entre um casal
de namorados poder beijar-se na rua, ou poder sequer pronunciar a tal palavra
liberdade, num café, na escola, no trabalho, sem que te caísse em cima a famosa
PIDE – Polícia de Intervenção e Defesa do Estado. E se intervinha! O medo
sempre presente, parecia acabar ali naquele grito que surgia, como um dia
seguinte.
E no dia seguinte, fui eu quem
decidiu voltar a Portugal e fazer com que o meu filho nascesse aqui, mesmo
antes de saber se era uma filha. O meu filho já podia ser livre.
Enfim, acreditava eu…
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