Branco é. Pessoa o põe.
Branco. A folha branca, nunca me meteu medo. Aliás, pelo contrário. Ausência
de cor. Ou junção de todas as cores. A cor da luz. A que todos os raios de luz
reflete, sem que absorva nenhum. A que se nos apresenta com a máxima
clareza. Do nada, tirar tudo. Fazer nascer a cor. A paisagem, a viagem na
magia das palavras. Copiar, disfarçar, não! Fazer diferente. Posso até gostar
da cor e do formato do sapato do vizinho, mas andar com o sapato alheio, não
é para mim. Por isso as fórmulas para escrever romance, sempre me
pareceram proibidas. Roubar as ideias dos outros. Deliberadamente. Sei lá.
Quando era miúda fiz uma cábula, para um teste de física e química. Escrevi-a
na mão esquerda. Estava tão aflita por estar a fazer uma coisa contra a
natureza que não consegui abrir a mão. É assim que me sinto ao pensar em
utilizar fórmulas estereotipadas para escrever. Como se estivesse a fazer
alguma coisa proibida. A roubar as ideias de alguém. De uma palavra que me
surge na contemplação de alguma coisa bela, fazer um texto, parece-me muito
mais limpo e honesto. Do branco fazer cor. Recriar, a partir da minha criação.
Uma vez vi peixes a dormir sobre a água. Nunca tinha imaginado tal e essa
imagem ficou-me gravada. Os peixes dormiam ao cimo da água na beira do rio,
como suspensos da manhã seguinte. Assim, sobre a água. Como ilustrações
num livro de histórias. Estou a beber a minha água, onde coloquei umas gotas
de sumo de limão e penso que o limão está a conspurcar a água, tornando-a
azeda e turva. Como a vida, nos dias em que por falta de luz a vejo sem graça.
E isto também é criação.
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