"Tudo era belo e nada doía"
(Texto de Virgínia de Sá a partir da frase de Kurt Vonnegut)
Entre as panelas, ela torcia o vestido em angústia. Lá fora havia música, e certamente as pessoas dançavam na quela noite de S. João. "Tudo era belo e nada doía". Assim imaginava a noite lá fora, onde as pessoas eram felizes. Para si, as panelas. Na cozinha já fumegava uma sopa para a família. Os olhos enchiam-se de água. O vestidito torcido entre as mãos contendo um soluço.
Qual Cinderela, assim se sentia dentro da cozinha onde o vapor começava a enevoar a pequena janela sobre o beco.
- Podíamos ir ver o arraial - ouviu-se dizer.
Como resposta ouviu uma espécie de rosnar. Arriscou mais uma vez.
- Depois do jantar, quer dizer...
A voz do homem soou grossa e de repente pareceu-lhe maléfica.
- Tu queres é festa.
Não disse mais nada. Um dia hei-de sair por aquela janela e não voltarei nunca mais. Logo. Logo à noite vou continuar a ler o meu livro. Ainda bem que tenho um livro bom para ler. Aquele gato aprenderá a voar como uma gaivota. Eu também hei-de voar. Um dia tudo será belo e não vai doer.
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