Desafio para conto
O Bicho Danado
domingo, 9 de março de 2025
Grupo de escrita criativa - Lara Barradas
segunda-feira, 27 de janeiro de 2025
ESCRITA CRIATIVA Para desafiar a imaginação e escrever pequenas histórias
com Joaquim Semeano
Escolhi uma Personagem, imaginei-a, assim como o Lugar onde ela entra
o conto...
Ora aí está! Exatamente como imaginei. Todos sujos de molho, a escorrer pelas barbas. As figuras principais já com os fatos todos manchados. A mesa enorme, de comprida. Podia parecer a última ceia, não fossem os porcos que lá estão sentados. O da direita, arrota. A princesa limpa os beiços com as costas da mão. O "chefe" ajeita a coroa e o molho escorre pelas mangas. Eu espreito por detrás do cortinado de veludo vermelho. Ajeito o meu chapéu de três bicos e preparo-me para entrar.
"Tenho de os fazer rir", penso! ou ainda acabo devorado como aqueles pedaços de javali, que vão levando aos beiços.
"Aqui vai disto" digo num passo de cavalo, atravessando a sala de um lado ao outro.
Suspendem o javali no ar a escorrer molho, mas não há nenhuma reação. "Rápido! não reagiram", penso. E dou um salto para cima da mesa. Quase caio na bandeja cheia de castanhas com que acompanham a carne.
"Olá, olá, seus porquinhos, qual deles o mais sujinho" O carrasco na ponta, arrota e dá uma gargalhada. "Menos mal. Já conquistei o mais importante". O padre baba-se. O cavaleiro retira o elmo e quase enfia as penas na sopa de nabos. Vou até à ponta da mesa e começo a trabalhar os malabares fitando a princesa que sorri por entre o molho. "Mais uma", penso. "Agora a mãe"... Deito-me de costas frente ao prato dela e começo a pedalar ofegante. A rainha também sorri. Salto então para o chão, e fazendo três vénias ao rei, digo: " O rei dos porcos!" apresentando-o com mais uma vénia aos outros convidados. O carrasco levanta o machado. Sinto-me empalidecer e já penso que vou desmaiar. O próprio Robin dos Bosques que acaba de assomar ao varandim, parece ajeitar a besta para disparar frente a mim.
É quando aperto a bolinha do terceiro bico do chapéu, mesmo a tempo de me teletransportar e cair no palco do cine teatro S. João.
Virgínia de Sá
quinta-feira, 23 de janeiro de 2025
Desafio para conto
Grupo de escrita criativa - Lara Barradas
Texto de Virgínia de Sá
Tema: Construir um personagem a partir de uma entrevista
Escrever um conto
Idealnéscio
Idealnéscio, era um homem de cinquenta e cinco anos, meio calvo, baixinho e demasiado magro. Se as pessoas se devessem julgar pela sua aparência, dir-se-ia um "Zé Ninguém". Enquanto andou na escola comercial, tinha por alcunha "o fuinha". Contabilista, era um pai cumpridor, e amante dos seus filhos, embora não o soubesse demonstrar. Era um homem de rotinas. Tomava o pequeno almoço religiosamente no café frente à igreja, como se a frequentasse. Todos os dias uma meia de leite e uma torrada em pão caseiro com pouca manteiga. Depois, dirigia-se a pé para o escritório que partilhava com outros dois contabilistas.
Na fachada norte do edifício, podia ler-se Idalécio, escritório de contabilidade. O nome não correspondia, mas veio a calhar. Quando era rapaz, se lhe perguntavam o nome dizia muito rapidamente Lécio ou Nécio para não ter de dizer o nome como ele era.
Idealnéscio, era filho de um caixeiro viajante. Quando o pai fez o registo, sempre com pressa de partir, não reparou que o oficial do registo civil colocava Idealnéscio, em vez de Idalécio, que era o nome do seu avô. Assim o rapaz, teve de lidar sempre com a vergonha do seu próprio nome, e no dia que decidiu convidar os colegas para partilharem consigo o escritório de contabilidade, teve mesmo vontade de colocar o nome de um deles como principal. Foi a mulher quem o dissuadiu. - Então não querem lá ver? Tu é que tiveste a ideia, e agora ias pôr o nome de outro à cabeça? A mulher tinha razão. Bom, mesmo que não tivesse, ele diria que tinha e lá mandou fazer a placa. A surpresa chegou quando vieram colocá-la.
O contabilista veio fora, admirar a placa negra, onde ressaltava a branco em grandes letras, conforme indicação da mulher que também era secretária na empresa, Idalécio e por baixo, em letras mais pequenas escritório de contabilidade. Idealnéscio, abriu a boca de espanto, mas quando ia a dizer "o nome está mal escrito", resolveu calar-se. Após reunião com os colegas, chegaram à conclusão que seria mesmo melhor para o negócio não mencionar tal nome. E assim ficou a placa e o nome da empresa de contabilidade, "em homenagem ao bisavô do contabilista". Toda a vizinhança que nunca tinha ouvido o verdadeiro nome, passou então a tratar o contabilista por Senhor Idalécio. Durante vinte e cinco anos, assim foi.
Precisamente quando o escritório ía comemorar um quarto de século, coincidiu com uma enorme crise nacional, que levaria à falência centenas de empresas e consequentemente vários escritórios de contabilidade. Nem era o caso de Idealnéscio, mas por via da crise, o contabilista acedeu a dar uma entrevista a um jornal local. De questão em questão, foi-se apercebendo que tinham passado vinte e cinco anos da sua vida, sem que nada de notável acontecesse. Começou então a frequentar um site de amizades online.
Havia já umas semanas que lhe aparecia uma linda senhora, brasileira, umas vezes a cavalo, outras em recepções ou festas, muito bem vestida e penteada. De imagem em imagem veio a perceber ser esta senhora, viúva, ter quarenta e oito anos, e possuir uma fazenda no Brasil, onde fazia criação de cavalos. Não demorou um mês para que trocassem fotos e nem dois para trocarem juras de amor. A namorada virtual, , foi-lhe mostrando ao longo de dois meses todo o seu quotidiano. Tudo na verdade foi mostrado e ficou claro nas longas conversas que tiveram por vídeo. Tão real como se já estivessem juntos.
Quanto mais contacto tinha com Esperança, assim se chamava a agora namorada brasileira, mais percebia o quanto a sua vida tinha sido sem pimenta e sem sal, e um dia, aproveitando a baixa de clientes, e a inferior faturação, convenceu a mulher de que iria viajar ao Brasil, com vista ao alargamento da atividade.
Convencidos também os colegas, de que poderia ser uma boa opção, prepara toda a viagem, ao mesmo tempo que se prepara para partir de vez e ir viver com Esperança.
Depois de se despedir da família, e sobretudo de abraçar a filha que adorava, temo-lo então já no avião, vendo a sua terra a afastar-se, não sem antes ter transferido, uma generosa quantia para o nome da sua amada, com vista ao seu estabelecimento em São Paulo. Ela ficou encarregada de alugar o espaço e cuidar dos trâmites iniciais para o novo escritório de contabilidade. Sendo brasileira seria muito mais fácil.
A confiar na sua estrela guia e na sua amada, finalmente o nosso herói, vê a grande cidade aproximar-se, depois de uma enorme extensão de verde e de terra. Parece-lhe ser ele próprio um drone que vai observando de cima os grandes edifícios de S. Paulo, vendo-se cada vez mais perto. Brasil! Finalmente! Tantas vezes sonhara na sua adolescência, fazer um dia essa viagem, mas que voltas dera a vida e como o desviara dos seus sonhos. Idealnéscio chega por fim ao aeroporto onde Esperança o vai esperar para o levar para a fazenda, sua propriedade.
Tudo estava combinado ao pormenor. No dia seguinte, teriam tempo para ir visitar o lugar que ela arrendara para o escritório de contabilidade. Por ora começariam a conhecer-se ao vivo e "matar saudades". Após recolher a bagagem, o que demoraria o seu tempo, Idealnéscio, pousa a mala sobre um assento e logo que pode, liga o telemóvel tentando estabelecer ligação com a sua amada, mas por mais que tente não consegue completar a ligação. O número está inacessível.
Decide relaxar um pouco. Certamente ela virá a conduzir e não pode atender. Talvez o telemóvel tenha ficado sem bateria. De repente vislumbra ao longe uma figura que lhe parece Esperança. Claro, ela estaria a observá-lo. Talvez fosse uma brincadeira. "De mau gosto aliás", pensa Idealnéscio, fazendo jus ao próprio nome e precipita-se para lá, empurrando a mala, quase tropeçando, vermelho e ofegante, enquanto a senhora que vislumbrara se levanta e segue caminho, deixando perceber aos seus olhos de míope que não tinha nada a ver com a amada.
Senta-se por fim. Nesse momento, algo como um pressentimento, cruzou a sua mente. Mas não. Não podia ser. Ele conhecia, a sua casa, a fazenda, os cavalos, os seus amigos. Tinha inclusive participado em festas que organizaram virtualmente. Dormiu várias noites com Esperança a seu lado. Virtualmente, sim. Mas ela estava ali. Que disparate, pensou. Como posso estar a pensar uma coisa destas. Aconteceu qualquer coisa. Daqui a pouco vai chegar e explicar-me o que se passou. "Desculpa querida", murmurou.
Voltou a ligar. Uma, duas, dez vezes. O tempo passava e aumentava o seu desespero. Deu consigo a falar alto: "Esperança, onde estás?", mas a esperança estava cada vez mais longe. No auge do pânico decidiu ir ao Banco para onde tinha feito a transferência, informar-se. Ela tinha levantado todo o dinheiro que enviara. No Banco disseram-lhe que seria muito difícil saber o paradeiro da referida senhora, tanto mais que já tinha tido dois ou três endereços diferentes, e ainda que o soubessem não poderiam dar-lhe essa informação, além de que a conta tinha sido cancelada. Só se fosse à policia, mas iria queixar-se de quê? Não era crime nenhum aceitar uma transferência de um amigo.
Idealnéscio descobriu então que tudo na vida tem um propósito. No seu caso, acima de tudo o seu próprio nome. Pensou em suicidar-se, mas a lembrança da filha a abraçá-lo na despedida "volta depressa, sim pai?", afastou a ideia. Depois de beber uma garrafa inteira de whisky e de dormir várias horas num hotel de terceira, decide telefonar à mulher e contar-lhe a história possível. Conta-lhe então que tudo tinha sido um logro, que a tal empresa intermediária que estava a ajudá-lo a estabelecer-se no Brasil, e que o dinheiro transferido, desaparecera, bem como a conta. "Faço-te uma promessa", diz à mulher. "Nunca mais volto a sair de ao pé de ti".
Ignorante de tudo, a mulher chorosa diz-lhe que regresse "volta, estás perdoado" pensa Idealnéscio com um sorriso canalha, enquanto prescruta o aeroporto pela última vez com esperança de ainda acontecer um milagre. "Para a próxima serei mais cauteloso", e já vai imaginando como fazer da próxima vez. Pode ser até que tudo não passe de um equivoco. Quando chegar ligará o telemóvel. Esperança há de explicar-lhe o que sucedeu e tudo se recomporá. Mas a mente prega-nos partidas e aqui disse-lhe "mais depressa".
Nunca irá saber como desceu de uma vez dois degraus da escada do avião, caiu desajeitadamente a embrulhar-se na pasta e galgando a escada para o lado exterior bateu fortemente de cabeça. Quando acordou não sentiu as pernas. Foi assim que a última promessa feita à mulher, se cumpriu.
terça-feira, 21 de janeiro de 2025
Desafio para conto
Grupo de escrita criativa - Lara Barradas
Texto de Virgínia de Sá
Tema: Um idoso que deixou memória
Tenho quase um século de existência
É tarde! É tarde! É tarde! Dizia-me ele, sempre apressado, lembrando o coelho da Alice da outra história. Não havia um dia que não passasse por lá, deixasse uma mensagem, pedisse um conselho, ou trouxesse uma novidade. Aquela expressão à chegada, quase sempre me fazia pensar que de facto o tempo estava a passar com muita rapidez, pelo menos para ele.
Às vezes dizia-me: Tenho quase um século de existência. Eu ouvia aquilo com os meus trinta anos e ria. Pensava que ele dizia aquilo com graça, mas era a constatação da sua realidade. Foi preciso viver outro tanto, para perceber como aquela frase fazia sentido. Perceber o quanto eu era egoísta, na minha juventude e como não entendia aquele, que talvez fosse um grito de pré despedida.
Uma vez esteve dois dias sem aparecer. Quando já me preparava para lhe ligar, preocupada com o que pudesse ter acontecido, chegou. Nesse dia não vinha como o coelho da história. Chegou vagarosamente. Como sempre de camisa lavada, e a cheirar a água de colónia, mas entrou devagar, e logo que o vi, pareceu-me diferente. Um pouco mais pálido do que o habitual.
- Então, esteve desaparecido? - perguntei-lhe.
- Apagou-se a luz, disse-me com o seu ar, entre o sério e o jocoso.
- Ficou sem luz? Exato! Assim se pode dizer. Estava no Banco, junto à caixa, senti uma tontura e zás. De repente apagou-se a luz. Parece que caí. Só acordei na maca da ambulância. Olhe, fiquei a saber que morrer não custa nada. É só apagar a luz.
domingo, 19 de janeiro de 2025
Desafio para conto
Grupo de escrita criativa - Joaquim Semeano
Texto de Virgínia de Sá
Tema:
Telefonista que está a perder a memória
encontra presidente de Junta de Freguesia que tem vício secreto
Sinto que estou a perder o comboio.
Literalmente. Galo as escadas rolantes, de dois em dois degraus. Chego lá acima, sem fôlego, mas ainda a tempo de pressionar o botão que abre a porta. Tenho o coração na garganta. Entro no comboio. As calças de ganga escorregaram um pouco e repito novamente o tique favorito, puxá-las para a cintura. Subo então as escadas, já dentro da carruagem que avalio, onde apenas um passageiro está sentado a meio dela. Aliás, uma passageira. Observo o seu casaco de inverno, azul, que tem reflexos lilases, quando as luzes lhe batem em cima.
Ia mesmo perdendo o comboio. Ultimamente esta expressão tornou-se uma realidade na minha vida. Sou telefonista há trinta anos. Trabalho numa multinacional, uma rent a car. Os algarismos são para mim uma coisa familiar. Quando me pediam para fazer uma ligação para determinado número, há algum tempo atrás nem necessitava escrevê-lo. Bastava ouvi-lo e já estava a digitá-lo na central, e mesmo que fosse utilizá-lo dali a minutos, ficava na cabeça. Claro que à cautela, escrevia-os todos, não fosse baralhar algum, pois já se sabe que o Tico e o Teco têm destas coisas, mas invariavelmente, ao conferir, o número estava lá. Na cabecinha.
Sabia que o número tal era o da casa do Gomes da contabilidade, o número y era o do restaurante onde o Silva ia almoçar com a mulher, e o w era o do motel, onde o Fernandes ía dar uma voltinha com a Lurdes do car control. Quando comecei a trabalhar como telefonista, o sistema da central de telefones era ainda de cavilhas. Mais tarde passou a alavancas, e desde há alguns anos passou a uma central elétrica com dezenas de botões que se iluminam e piscam quando entra uma chamada em linha, e ficam acesas quando a extensão está ocupada.
Não sei o que me aconteceu, mas recentemente tenho alguns momentos em que aquele "bezidróglio" me parece alguma coisa estranha. Há dias dei comigo a olhar para ele durante algum tempo como se fosse um elefante a tocar violino, sem saber o que fazer com o animal em seguida. O pior de tudo é quando julgo ter decorado um número de telefone, e zás! ele desaparece da minha memória como se tivesse voado...
Agora que reparo melhor na mulher do casaco azul, parece-me que a conheço. Mas de onde? Ela vira o rosto para olhar pela janela e reparo que é a Presidente da Junta de Freguesia. Que fará a criatura num comboio quase deserto a esta hora da noite? Toda a gente sabe que pelo menos em Portugal, um presidente de uma Junta de Freguesia importante não anda normalmente de comboio, mesmo que o carro esteja a arranjar na oficina e o mecânico não cumpra a sua palavra: "entrego-lhe amanhã sem falta", como é habitual.
Decido sentar-me dois lugares atrás, mas ao tentar entrar para o assento, faço-o tão desajeitadamente que tropeço na lateral do banco e quase me sento no banco da dita cuja. Ela vira-se e não posso evitar cumprimentá-la uma vez que me conhece.
A primeira coisa que sinto é um hálito forte a álcool. Oh, diabo! Será que a mulher está a passar por algum desgosto de amor, e decidiu meter-se nos copos?
- Boa noite senhora doutora, como está a senhora? Vejo que trabalhou até tarde como eu.
A resposta deixa-me atónita, pois a criatura mente com quantos dentes tem na boca.
- Não sou presidente de coisa nenhuma e não estive a trabalhar.
Quase lhe respondo "vê-se", mas achei que era um pouco demais. Reparo então que tem uma queimadura na mão direita e que sobre o casaco, agora lilás, há uma mancha que só pode ser de sangue.
- Pois, a Junta de Freguesia, fica do outro lado...digo numa voz baixa, certa de que estou a pisar terreno perigoso.
A criatura levanta-se de repente, cambaleia e grita-me quase em cima do nariz:
- Não sou presidente de merda de Junta nenhuma, porra!
- Desculpe minha senhora, devo ter feito confusão. Respondo num sussurro.
Agora é que foi de vez! penso. Como fui confundir o raio da mulher com a Presidente da Junta? Fiquei tão indisposta que não preguei olho toda a noite.
Só no dia seguinte li no jornal em letras capitais "Presidente de Junta é destituída por vicio secreto".
segunda-feira, 30 de dezembro de 2024
Por detrás da janela
Baixa a música! dizia a minha mãe, que ficava sempre incomodada quando eu queria ouvir música. e eu sorria intimamente e pensava que ela queria dizer "baixa o som", mas não dizia nada, porque sabia que iria iniciar uma série de reprovações inúteis. Tinha doze anos, quando o pai partiu.
Os pássaros seriam então a minha companhia musical. Saía para o pequeno quintal de cimento com vinte e cinco metros quadrados, entalado com os seus muros altos, entre os prédios da rua. Alguém tinha aprisionado um pobre melro que lançava o seu canto sobre os muros de cimento. Nas traseiras do meu quintal uma grande árvore conseguia espreitar por sobre a parede do quintal da vizinha Josefina, e oferecia-me uma nesga de verde e o canto de alguns pássaros que ali encontravam o seu oásis, talvez atraídos pelo melro cantor, ou talvez não.
Às vezes ficava só no quartinho pequenino, onde se tinham encafuado os livros do pai, depois da sua partida e da mãe ter vendido a mobília de escritório. Chamávamos-lhe "o quarto pequeno". Já tinha sido o quarto de ninguém e agora era o meu cantinho, "o quarto dos livros dos pai". Aí podia ouvir a "minha" música, na sua rádio. Depois da partida do pai, nunca mais houve prendas. De gira discos, nem falar. Só experimentei, quando alguma amiga emprestava e era por um dia ou dois, daqueles pequeninos, onde só se podiam ouvir discos pequenos e não long plays.
Da janela também se via pouco. Era a confluência de quatro ruas, porque o nosso prédio ficava numa esquina. Na cidade de Lisboa, em bairros que não eram de passagem, durante a semana havia pouco para ver durante o dia, ou durante as horas em que as pessoas estavam a trabalhar. Lembro-me dos pregões, da fava rica de manhã, muito cedo, ainda escuro. Naquele tempo a mulher da fava rica ainda apregoava, "Fava rica! ", mas nunca provei. O pai era muito seletivo com a comida. Feita assim por pessoas, cuja higiene podia não ser respeitada. Tinha receio que fizesse mal à sua menina.
De madrugada, por vezes vinha a carroça dos cães. Assim lhe chamavam, mas era na verdade uma carrinha com grades, como se fosse uma prisão, conforme espreitei uma vez. Ouvia-os a ganir, mas o pai nunca me deixou ver. Lembro-me de ficar angustiada e ainda hoje fico quando penso naqueles latidos agudos de dor e sabia que estavam a apanhar os cães vadios para levar para canil. Ignorava o que lhes faziam. Só soube muito mais tarde, que, se os donos não os fossem buscar em algumas horas seriam todos "abatidos".
Nos ruídos da manhã havia também na época dos figos "Quem quer figos, quem quer almoçar?" e o azeiteiro, que também vendia petróleo para os candeeiros e vinha normalmente ao fim de semana. Naquele tempo, dada a amperagem ser baixa, faltava a luz com alguma frequência e era normal as pessoas terem um candeeiro de petróleo, que podia acender-se até que voltasse. Lembro o pregão: "Pitrolino!". Estaria relacionado com o petróleo? ou era uma palavra inventada pelo pregoeiro?
À noite a D. Ausenda vinha todos os dias trazer o Jornal. "Olhó Diário de Lisboa, o Diário a pular". Era o que eu ouvia de Diário Popular. O meu pai lia o "Diário de Lisboa". A jornaleira tocava a campainha e mal lhe abríamos a porta da escada, já estava a deixar o jornal no tapete. Eu gostaria de lhe fazer alguma pergunta, mas já saía pela porta do prédio fora e só conseguíamos apanhá-la para trocar umas palavras quando vinha receber os jornais no final do mês. Aí podia observar as suas mãos da côr do carvão. E a Dona Antónia, eletricista, que vinha trocar as válvulas da telefonia? Que estranho para a época haver uma mulher eletricista. Se não recordasse os seus nomes pensaria que a memória me traía. Verdade é que essa janela e essa porta se abriam sobre o mundo e lá cresci detrás delas.
POSTAL 1900 - Virgínia de Sá
Divagação sobre um postal de 1900
Ai que louca estou, junto ao meu vasinho. Leve, fresca e nua, como um passarinho.
Em penas deitada, como se repousando, empresto o meu corpo, aos que vão passando.
Banhos e lavagens e coisas que tais, sou asseadinha, que é que querem mais?
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Ao domingo, vejo-as passar de chapéu, as saias tapando os tornozelos, de braço dado pela Avenida, e eles ao lado, na sua importância masculina, cabeça levantada, apenas tocando o chapéu ao de leve quando cumprimentam, olhos em alvo, e eu ali, a reconhecer alguns, os carrinhos dos bebés à frente, os petizes a empurrar o arco e as meninas de canudos e laços de cetim.
Bem tento fazer-lhes, por vezes, sinais com o olhar e trejeitos com a boquinha, por tantos beijada e comentada, mas nenhum me vê. Hoje é o dia da família e da missa. Sagrado dia em que se vai à igreja e nunca olhando para a mulher do próximo. Muito menos para a mulher de tantos.
Não me importo. Serão elas mais felizes com os sorrisos trancados nas suas casinhas burguesas com a criadita enfezada, ou serei eu que ouço as confidências dos seus maridos, e me rio e divirto com eles na minha mansarda?