quinta-feira, 24 de novembro de 2016


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VIAGEM QUE NÃO SEI ONDE VAI PARAR OU COMO VIAJAR NUM FATO DE MERGULHO




A perna vai entrando através da borracha, o pé que prende.



Isto é mais difícil do que eu pensava, isto de ficar invisível tem que se lhe diga.


Depois a segunda perna ainda mais difícil, prende, tropeça, rende, tropeça, cai.

Caio para a frente, tenho que amparar-me antes que me espalhe ao comprido no chão. Invisível, mas não imutável... ainda que AINDA NÃO INVÍSIVEL.

Por fim lá consigo enfiar as duas pernas. Agora sim é que são elas como enfiar as ancas embora estreitas ali naquele tubo? E a barriguita proeminente depois de duas vezes gerar a cria a primeira vez apenas à distância de três anos do primeiro cio?

Puxo, puxo, suo, sopro, rio-me. Agora sim! Os braços! Sim, os braços. Ainda mais difícil. Quase desloco uma costela num esgar de contorcionista mal preparada. A mão que prende! Quase choro de raiva ao empurrar o segundo braço.

Agora é só encolher tudo. Abdómen comprimido, conseguir enfiar as mamas, que hoje estão maiores que nunca, dentro da borracha azul escura. Uma espécie de Neptuno, sem sexo, sem corpo. Ah... Falta o cabelo. ERRADO.

Cabelo é que não falta. Falta enrolá-lo por forma a que caiba na touca carapuço e agora sim Neptuno, sem corpo, sem sexo. Começo por onde?

Agora que sou Neptuno invisível, confundo-me com a bruma (pas de Avallon), quero confundir-me com a bruma para poder encostar-me no teu corpo, sem que o sintas, para que não possas afastar-me.

Poder mirar-me nos teus olhos! Vês qualquer coisa à tua frente mas não podes adivinhar que seja eu. Enxotas-me como a um mosquito, porque és intuitivo e lá no fundo do mar, sabes que estou ali. Mesmo que o não queiras. Porque TU SABES que queres. Que queres mais que tudo SABER PORQUE ESTOU ALI MESMO QUANDO JULGAS QUE NÃO ME CHAMASTE. Mas sabes que chamaste, quando na primeira vez os teus olhos me fizeram perguntas. Quem és? Quem és?

Mas tu sabes quem sou. Só tu sabes. Estás nu. Encosto-me por detrás de ti, só para sentir o teu cheiro, a tua pele, ainda que entre a tua e a minha se interponha a pele de Neptuno, meio peixe, meio homem. E é mesmo aí que a sereia torce o rabo e uma espécie de Unicórnio começa a querer fender a pele de Neptuno. Sentes-te incomodado. Sonhas vagamente com uma cena de violação. Mas Neptuno é um rei. Impõe-se pela sua nobreza! Não recorre a truques baixos!

Afasto-me devagar. Agora estou de frente para ti. As tuas pálpebras fremem em REM. Observo os contornos do teu rosto. Não são bonitos, (?) mas são familiares. Conheço-os de cor. Vejo-te os lábios que me apetece beijar com avidez.

Ah se tu soubesses a força de Neptuno. Como ele podia subjugar-te apenas pela força do prazer! A sereia volta e sinto os mamilos rijos que quase ferem a pele de Neptuno. Mas o rei volta a dominar o bicho meio peixe, meio mulher.

No meio da bruma vejo uma mão que se ergue branca e macia. É a minha mão e acaricio-te o rosto, os lábios, com as pontas dos dedos transformados em pétalas de rosa faço-te carícias plenas de amor refreando a paixão. Só quero agora que sejas o meu menino tenrinho que transporto ao colo num doce mergulho. E tu deixas-te guiar. Nos ouvidos um som de búzio, o marulhar das águas, como se estivéssemos outra vez unidos no ventre materno. Vummmmmmmmmm...Vvvvvuuuuuummmm.

Encosto-te a cabeça no meu ventre e tu sonhas que mergulhas. Tens um sorriso de paz estampado no rosto.

Apetece-me E SOU contagiada por essa paz. Começo a tornar-me pequenina para caber nos teus braços. Aninho-me neles e agora sinto-me no colo da mãe.

Tudo é fim e princípio... Não sei nem onde começa nem onde acaba. Mas sei que encontrei o meu lugarzinho onde me sinto em segurança... Que não quero sair dali nem despir o meu fato de Neptuno, para não me afastares.

Tum,tum,tum,tum, ... é o teu coração. Parece um pássaro que esvoaça. Através das águas profundas o brilho da aurora vem colocar matizes nos meus olhos.

Começo a ver o pássaro que bate as asas cada vez mais rápido. Tum,tum,tum,tum, Coloco-te sobre o peito as pétalas dos dedos.
Sossega. Sossega. Não sabes quem estava comigo na cascata? No dia em que o miúdo viajou dentro do coração? Não sabes? Não sabes? Eras tu!

Mulher, capitão, soldado, peão!


Entre nenúfares, emergiu
Trazia lodo na boca, 
O corpo repartiu.

Nas ruas de Lisboa, “Pés Pequenos”, caminhava
Cabelo ao vento,
No céu, cavalos desenhava

Prenhe de sonhos, no corpo gerou vida.


Todos os dias LEU. Cada personagem, tornou-o seu.
Índio, soldado, governanta, capitão.
Amante, feliz, sargento, peão.


No fogão ferve a panela.
Batata, cenoura, nabo, cebola, feijão.… e a chouriça, que bem cheirava!
Já está cozido. 
A sopa já se passava.

Agora na tábua corta a hortaliça.
Talvez um dia… príncipes, sultões…
cada vez mais alto, voam dragões.

Na mesa, bem alinhados, como se aprendeu em casa.

Prato! Garfo! Faca!
Direita! Copo! Esquerda! Guardanapo!
A toalha está torta!
Melão! Corta!

Olha o tacho que ferve por fora!
Baixa o lume! Agora!

Abre-se a porta, é ele, que alegria!
Nos olhos um sorriso…

- Mau; Há passarinho novo, ou perdeste o juízo?

Prato! Garfo! Faca! 
Direita! Copo! Esquerda! Guardanapo!

Desculpa, esqueci-me do pão…
Levanta a mesa, põe roupa a lavar. 
Dá banho ao menino. Põe-o a dormir. 
Vai lavar a louça. Continua a dança. 
Desfaz-se-lhe a trança.

No nascer dos sonhos, não há lugar para o encher da pança.

O homem ressona dentro do sofá.

Vassoura! Lixo! Pá! A máquina ronca. Acabou de lavar.

-Não podes fazer menos barulho? Não pode um homem descansar!

Agora passar a cozinha com esfregona. 
Sempre se suja, quando se faz sopa…

Que bom cheiro a alfazema…
Na quinta onde a avó morava, havia alfazema… que bem cheirava…

Se pudesse, voltava lá, 
apanhava uns raminhos, fazia uns saquinhos …
Punha na gaveta … e alecrim? 
Que bom para fazer chá …

Procura alguém com imaginação para escrever textos diferentes? 

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Entre o côncavo e o convexo                (resumo de uma sexta à noite)



Altos e baixos 
Nas tampas dos esgotos

Escoam-se mágoas e perdigotos

Correm as águas.

Há ratos mortos.



Os furacões levam as casas

Inundações varrem as asas

Pássaros negros furam os sonhos

Sobem angústias e abandonos



E no entanto 

No canto do bar

Há mulheres fúteis a gargalhar


Bebem-se copos entre cigarros
Esquecem-se lágrimas e desencontros

Dançam os corpos 
As frustrações
Os travestis imitam as Divas
Os mal amados disfarçam invídias 

Nos karaokes imitam-se vozes
Imitam-se gestos, comem-se nozes.

Almas furadas em buracões
E permeáveis os corações

Ao lado ecoam conversas sem nexo
… entre o côncavo e o convexo …


Príncipes e Sapos


Às vezes a chuva bate forte. Fica a doer no corpo como um laço de corda.

A corda fica bamba. E bamba , a corda bamba e eu balanço nela e cheira-me à canela. Como um doce de arroz onde se prende a trela.

Há sempre uma panela na cozinha, que cozinha 

Ao canto da cozinha um sapo que é uma rela. Ferve panela!

Há sempre um príncipe que nunca entrou nela. Ferve sapo, vira príncipe. Arde fogo na panela. Cozinha a rela.

Tira-me a sela! Solta-me a trela! Tira-me a sela!

E VEM UMA FOLHA

E vem uma folha rodopiando dourada e castanha ao mesmo tempo me faz pensar Outono, decadência, o que precede a velhice, as artrites, as artroses e as atrozes dores nas costas, nas cervicais, nos pés, nos tornozelos e noutras coisas mais. O medo da solidão. Ah o medo da solidão! Das noites frias sozinhas e caladas. Das noites caladas em que as palavras não ressoam nas paredes nuas, das minhas mãos que já não têm as tuas, das bocas engelhadas, desdentadas. Das mulheres esventradas que entram paredes dentro como facas afiadas. Dos sonhos perdidos, dos pesadelos, dos gritos e dos grelos. Crescendo nos vasos de terra estéril com desvelos de velhas a arrancar cabelos! O medo da falta do teu corpo sobre o meu a arrancar gemidos e gritos e pedidos. As asas de um corvo sobre a chaminé. E os fantasmas que não arredam pé. E os gritos! Os gritos mudos que não dei. E todas as palavras que calei. Por não ter quem ouvisse, tudo!


LIVRO
História de uma Viagem ou duas ou talvez não

- Capítulo I - A Viagem

                                                                                                                                                       Pág. 1
Todo o mundo e ninguém começa a parecer-me estranhamente familiar, logo que passo a porta de acesso ao embarque. Ali as pessoas sorriem e dizem olá e já se adivinha uma divisão subtil daqueles que afivelam um sorriso trocista ao nosso "branco" imaculado. A minha imaginação divaga... branco imaculado, virgem Maria, uma virgem no corpo, outra na alma.

O avião à pinha. - Agosto - os cabo-verdianos que trabalham em Portugal decidiram -todos?- ir de férias, no dia 31 de Julho de 2009, neste voo para a Praia? No avião não há um lugar vago. Sentamo-nos ao lado de um senhor de meia-idade, com ar simpático. É uma fila de três lugares. A criatura olha-me de soslaio a avaliar a companhia e cantarola do alto do seu fato de alpaca azul-escuro. Trauteia baixo uma qualquer melodia que não reconheço. Ao fim de 5 minutos, decide que sou de confiança. 

O homem do fato de alpaca azul silencia a música e começa o interrogatório - É a sua primeira viagem a Cabo Verde? - Sim é. E vai de férias? Quanto tempo? - Um mês. Um mês inteirinho! Digo numa alegria infantil de quem quer mesmo aproveitar as férias.

O homem azul começa a falar. Fala da profissão. É professor Universitário. Fala da sua vida, da profissão, dos amigos, dos hábitos de vida daquela gente, dos sítios que devo visitar, dos que não posso perder. Da música, dos cheiros, das cores, da vida. Vou bebendo as palavras, retendo o que me interessa daquela África que sempre quis conhecer o que durante anos não julguei ser possível. No meio algum pormenor me escapa. Tenho a sensação de que perdi alguma parte importante, mas começo a sentir-me um pouco cansada ao fim de duas horas de viagem e ininterrupta lengalenga.

Falo com a menina mulher. Convido-a a acompanhar-me ao WC. Ela não percebe à primeira que estou a tentar pôr um intervalo na conversa do tagarela, pois ainda temos mais duas horas de viagem pela frente. Logo a seguir percebe e lá vamos esticar as pernas avião fora por entre cabo-verdianos alegres que gesticulam, bebem cerveja pela garrafa e conversam gritando animadamente de uns assentos para os outros.

Regressamos ao nosso lugar. Antes da interrupção já nos tinha sido servida uma refeição - o que não chegou para calar o simpático tagarela -. Agora sim, parece mais sossegado. Ligou o computador e parece disposto a ver um filme. 

Talvez tenha percebido que o seu discurso me começava a cansar um pouco. Apesar disso nas duas horas seguintes vai fazendo alguns comentários, sempre com algum interesse. Quase parece tentado a desistir do voo que irá fazer de seguida para outra ilha, quando lhe digo que irei assistir a um espectáculo do Tito Paris. Por fim talvez o facto de lhe dizer que o meu marido me espera no aeroporto o tenha demovido.Pelo meio alguma turbulência normal e o voo decorre de forma confortável e segura.

O meu parceiro de lado que ficara com o lado da janela, toca-me ao de leve, chamando-me a atenção. Por sob a asa do avião vislumbro pela primeira vez a ilha. Uma alegria imensa percorre-me o corpo, os sentidos. À medida que nos aproximamos a terra vai aparecendo. Consigo perceber a parte pobre da ilha, e a parte mais rica, e a terra... A terra de África avermelhada e tão terra... A terra mais terra do que qualquer outra. Sem saber porquê fico emocionada. Forma-se-me um nó na garganta. Não sei o que sinto nem porquê. Tento perceber se é emoção de português ao chegar, se é o meu sonho de um dia viajar para África, se é a possibilidade de abraçar a criatura,  que me coloca nesta ansiedade. Acabo por perceber que não tem a ver com a última hipótese. Já me magoou tanto que perdeu o encanto.

O piloto aborda a pista violentamente. Todo o avião estremece quando o trem toca o solo e imagino uma pedra de isqueiro gigante a riscar o chão da pista e milhares de faúlhas coloridas de fogo e azul a saltarem por todos os lados. Sei de fonte segura que é o momento mais perigoso de toda a viagem. Fecho os olhos e rezo a oração de S. Miguel Arcanjo que ali, puxando-o do céu para segurar aquele pássaro gigante, me parece mais apropriada do que nunca. S. Miguel à frente, S. Miguel atrás, S. Miguel à direita, S. Miguel à esquerda, S. Miguel em cima, S. Miguel em baixo, S. Miguel, S. Miguel, S. Miguel, onde quer que eu esteja sou o teu amor e estou sempre protegida.


Completa-se a aterragem. Os cabo-verdianos que compõem uns 95% dos passageiros, iniciam um sonoro e histérico aplauso colectivo, que acaba por me contagiar. É uma onda energética de alegria e cor que me põe também a bater palmas com o coração aos pulos.

Seguem-se 2 horas de atenta pesquisa ao tapete rolante da bagagem, aguardando que as benditas malas saiam, pela portinhola, no meio de um calor imenso, abafado, mais quente que os dias piores de calor em Portugal. Jesus! Até eu que não gosto de ar condicionado, penso agora, que bem me saberia! Por fim as malas com intervalos de 30 minutos cada uma. Lá vamos, bagagem recolhida. Cabo Verde. Ilha de Santiago. Cidade da Praia!

Aqui vamos nós. Por entre as pessoas que aguardam os passageiros, logo à frente, vejo um homenzinho que gesticula do alto do seu metro e sessenta - Por aqui! - Por aqui! -


- Capítulo II - Esta é a minha família de cabo verde


É ele. Percebo que está feliz por nos receber. Não só pela filha, mas também por mim. Está nervoso, feliz, ansioso. Pergunta-me logo pelas chaves do carro que me entregaram nos escritórios em Portugal, e que nos espera no aeroporto. Seria esse motivo parte da sua exuberante felicidade?

Ao fim de 5 meses em Cabo Verde é a primeira vez que vai ter carro e isso põe-o como uma criança à espera de brinquedo novo. Conheço-te tão bem "Criatura"! Ás vezes desejaria que as pessoas tivessem mistério, mas é tudo tão claro e facilmente decifrável. O homenzinho Criatura irrita-se sobremaneira com o facto de o "Olho Vivo", como me chama, ser uma espécie de "grilo falante" que lhe penetra na consciência, pondo-a a nu, com todas as miudezas à mostra sem dó nem piedade. Esta minha mania da franqueza e de dizer tudo o que sinto, vai-me coleccionando dissabores ao longo da vida, mas como na generalidade gosto mesmo das pessoas e vejo nelas - salvo algumas excepções violentas que tenho por vezes, com os hipócritas e afins - o seu melhor. Isto também tem servido para coleccionar grandes amigos.


Entramos no jipe, que o Criatura põe em movimento - feliz - nervoso - ansioso e seguimos por uma estrada de alcatrão entre um descampado que nos leva à cidade da Praia. À nossa direita um Pavilhão grande e feio, que segundo o Criatura , nos levará a um momento inesquecível das nossas férias em Cabo Verde, amanhã. Vamos assistir a um concerto do Tito Paris ao vivo! 

Ouvi pela primeira vez há uns meses, o Tito Paris. Até ali, poucos nomes na música cabo-verdiana me eram sonantes, tirando a Cesária Évora, pessoa que me deixou arrepiada desde a 1ª vez que a ouvi. No entanto, este Tito Paris, é sem dúvida um músico de se lhe tirar o chapéu. "Chapéu di Fita" ou "di Palha". Vale a pena ouvir. A instrumentação de uma qualidade extraordinária, incluindo violoncelos, um dos meus instrumentos favoritos. A voz, a composição. Nada a apontar, senão qualidade, rigor, ritmo.


O Criatura vai-nos mostrando a parte iluminada da cidade. Não nos iludamos. Estamos em África, embora o que me é dado observar se assemelhe extraordinariamente ao Algarve, não o de agora, mas o de quando lá passava férias há cerca de vinte anos atrás, quando "vivia acima das minhas capacidades". A construção antiga deixada pelos portugueses, o Platô, parece uma cópia da antiga Vila Real de Sto. António, algarvia. Mesmo a parte nova, das avenidas mais largas aos prédios e moradias da parte mais rica e moderna da cidade, onde o Criatura reside e vamos ficar, continuam a assemelhar-se fielmente às minhas cidades referência do Algarve. Julguei ir encontrar uma cidade similar ao interior do Alentejo, mas é cada vez mais o Algarve que me serve de termo comparativo.

Chegamos por fim à moradia, bonita, de boa construção, parecida com as portuguesas no melhor da gama. Um pátio com plantas verdes, bem cuidadas e árvores de fruto de pequeno porte, uma palmeira. Dois varandins de balaústres de pedra branca em redondo, no piso superior. As portas, portão e janelas de boa qualidade e gosto, lacadas a verde-escuro, o chão empedrado a ladrilhos de mármore 40 x 40. O páteo impecavelmente limpo e fresco. 

Minto! Fresco é que não. O calor começa a atingir-nos violentamente e o termómetro do carro onde se lia 28º no exterior, mente descaradamente. Estão pelo menos, no meu sentir, 35º à sombra nesta noite de 31 de Julho de 2009, pelas 21h30, cidade da Praia, Palmarejo - Cabo Verde. O ar começa a pesar-nos, a incomodar-nos. Um pátio interior igualmente preenchido de pequenas árvores e plantas, dá acesso a vários apartamentos no piso inferior e superior, através das escadas à volta do pátio. Verifico que existe suficiente privacidade entre cada apartamento, embora constate mais tarde, que se comunicam entre si, os que estão próximos, através de portas interiores, que, pormenor curioso, se encontram no entanto seladas, sendo portanto impossível abri-las.

Entramos no nosso apartamento por uma sala suficientemente espaçosa com uma cozinha em "open-space", tipo kitchnet, apetrechada com um fogão de forno alto com 6 bocas a gás impecavelmente limpo. Lava loiças em inox, móvel baixo e de parede. Bancada, frigorífico combinado. Na sala, um sofá cama de 3 lugares, 2 cadeirões confortáveis, tipo cadeira de baloiço, TV, aparelhagem de DVDs, um móvel ao baixo com gavetas. É um confortável apartamento de férias, que podia estar em Portugal ou em qualquer outra parte do mundo. Na verdade eu não esperava isto em África! Uma escada de ferro lacada a verde inglês, leva-nos ao 1º piso. O quarto é espaçoso com dois enormes roupeiros de parede munidos de gavetas e prateleiras. A cama de casal é grande. O quarto, suite, dá acesso a uma casa de banho grande, moderna, com banheira embutida na parede com grandes degraus de acesso. Está escrupulosamente limpa e bem apetrechada.

Todas as janelas de ambos os pisos se encontram protegidas por redes mosquiteiras de fina malha que não deixam passar sequer um mosquito. As redes encontram-se seguras através de armações de madeira fixas ao vão da janela pelo lado de fora, permitindo assim que permaneçam abertas durante a noite e não deixem passar as osgas, baratas, mosquitos e moscas ou outra bicharadas das que proliferam nestes países. A minha imaginação divaga imaginando alguma serpente ou outro qualquer réptil a ficar retido do lado de fora. Posso dormir descansada!

Refira-se no entanto que por via da esmerada limpeza a que é sujeito diariamente o apartamento e espaço limítrofe, ao fim de cerca de 15 dias, tínhamos visto apenas umas três baratas gigantes e duas osgas de porte médio e pigmentação bicolor.

A Menina Mulher sobe as escadas e fico à espera que o Criatura me abrace e me beije na continuação do abraço da chegada, agora na intimidade, como costumava fazer anteriormente, e me transporte novamente ao consolo de ser amada. Afinal parece ter-se esquecido que que estou presente e estranhamente vai sentar-se ao canto da sala numa das poltronas em frente à TV com o comando na mão. Coloca então uma música desconhecida no leitor de CDs da qual retive remotamente o repetido enaltecimento às mulatas de Cabo Verde. Sem que o possa evitar duas grossas lágrimas deslizam pela minha face estupefacta e com elas desce a cortina da ilusão. Tento disfarçar os meus sentimentos, fingir que não se passou nada, mas o "nhô" Criatura dá agora por isso, e embora tardiamente, vem perguntar-me o que tenho. Com a minha franqueza habitual sinto-me forçada a dizer-lhe que esperava que me abraçasse em vez de se sentar frente à Televisão, que entretanto ligara e cujo ruído se misturava com o do CD. 

Não sei bem porque insisto em pôr a nu tudo o que sinto. Talvez espere que ele entenda como me estou a sentir, o que seria pedir muito.

Virá algum dia alguém que sinta como eu, ao meu encontro e acontecerá uma fusão de alma? ... O meu síndroma do príncipe encantado a voltar à superfície... Culpa do meu pai! O primeiro livro que me comprou, tinha eu uns seis anos foi "A Dama e o Vagabundo". Uma espécie de príncipe encantado ao contrário. No fundo o prenúncio do guião que seria a minha vida. Histórias de príncipes encantados "ao contrário". Histórias de sapo-príncipe - príncipe-sapo. O Criatura vem por fim abraçar-me, um esgar de beijo mal provado, ao canto da boca, cuja semi ausência me reafirma a inexistência de príncipe nesta história.

Agora é a vez de me serem apresentadas as donas da casa em que ele vive.

1.      Esta é a minha "família" de Cabo-verde: diz o Criatura nervoso-ansioso-orgulhoso?

- Porquê?- Enquanto me apresenta a Rosa, a Maria e mais tarde o Luís, que segundo o Criatura viajara connosco de Lisboa, no mesmo avião. Durante a conversa inicial, aproveito para testar os meus conhecimentos em astrologia. A Rosa, a dona da casa, signo Leão, 45 anos, comunicativa e com um humor contagiante. A sua filha Maria, signo Capricórnio, de 27 anos e segundo o conceito difundido em Cabo Verde, já solteirona e com promessa de ficar para tia. Após o cumprimento de boas vindas, baixa os olhos numa cortina de comprometimento. - Porquê? interrogo-me - Logo se combina um jantar com camarão gigante que o Criatura comprara para a ocasião, para o dia seguinte, mas que acabará por se realizar dias mais tarde.

Vamos para cima refrescar-nos. Eu e a  - criança-mulher - começamos uma vivência de cumplicidade e partilha nessa noite na casa de banho. Mudamos de roupa após o duche sumário, depois do aviso de falta de água, ameaça que irá pairar continuamente sobre nós. Pinto apenas os lábios e coloco um pouco de perfume, mas a criança - mulher perde muito mais tempo a maquilhar-se e perfumar-se. Saímos enfim.

Vamos jantar ao Cermar Gamboa ao lado do Hotel Pérola. Comemos um bife com batata frita de óptima qualidade. Servem dois bifes do lombo de grossura média por pessoa. Não conseguimos comer a carne toda e penso de imediato no desperdício perante a população africana que passa fome. Mesmo ali na mesma cidade. O Criatura paga uma refeição quase ao dobro do valor de um restaurante de luxo em Portugal, embora se possa equiparar pela qualidade do restaurante. Como entradas um queijo Filadélfia, que é sempre agradável e umas ovas de carapau -?- fritas de gosto duvidoso.


A noite processa-se de forma mais ou menos esperada para quem não tem sexo há três meses. Durante toda a noite acordo umas vinte vezes com um calor insuportável e húmido que se cola à pele de forma pegajosa, apesar da ventoinha de tecto gigante que trabalha toda a noite num ruído incomodativo.


- Capítulo III - Uma praia surpreendente e um concerto surpresa


Sábado 1 de Agosto de 2009

Acordo cansada de uma noite mal dormida, pelas 7h30, com um ritual que se repetirá todos os dias pela mesma hora com a Peluca? - Filuca? A bater no portão. A Peluca, Filuca, logo tirarei isso a limpo - é a empregada que faz a limpeza dos apartamentos diariamente.


Tomamos o pequeno-almoço no "Pão Quente", uma cadeia de cafés/padarias de portugueses com excelente aspecto e qualidade. Lá encontramos toda a espécie de pão, bolos, sumos naturais e bebidas de todo o tipo tal como em Portugal. Eu e o Criatura tomamos o nosso café em tudo igual ao de Lisboa, e comemos uma sandes de pão quente com queijo fatiado e manteiga. A Menina mulher come o mesmo acompanhado de um néctar da Compal. Curiosidades de um país que já não é português! Começa nesse dia um ritual antes de sair de casa que se irá repetir todos os dias e que consiste em comer uma peça de fruta sempre pela manhã com um grande copo de água. Nos primeiros dias comemos sempre manga, tendo passado depois à laranja. Bom hábito a seguir!


Vamos então à obra onde o Criatura trabalha e somos apresentadas aos três engenheiros cabo verdianos que trabalham com ele e ao funcionário administrativo Luís. Todos são simpáticos, bem-humorados, risonhos, comunicativos, mulatos e bem parecidos.Na rua somos cumprimentados à esquerda e à direita por dezenas de pessoas que passam por nós, quer de carro, quer a pé. No início penso que o Criatura já conhece ali imensa gente o que não é difícil, dado o meio pequeno, em que estamos inseridos e o facto de sermos brancos, que faz com que as pessoas nos prestem maior atenção por estarmos em minoria e saltarmos à vista, por assim dizer. No entanto, em breve percebo que o cabo-verdiano de classe baixa (e não só mas em contextos diferentes), cumprimenta na sua humildade e encantadora ingenuidade toda a gente que por si passa. Além disso, podemos senti-lo, conserva na sua genética, alguma especial deferência para com o branco visitante que um dia já foi considerado como que um pai espiritual transmissor de sabedoria e conhecimento.


Infelizmente também outras memórias respeitantes, aí mais ao branco senhor, permaneceram vivas na carne de quem foi explorado e vilipendiado pelo branco, raça à qual não me orgulho de pertencer no que concerne à mais vil exploração do homem pelo homem. O esclavagismo.


À tarde decidimos ir à praia. Vamos cruzando a cidade da Praia de jipe, as ruas encimando a praia à direita. Ao chegarmos perto, somos surpreendidos por uma algazarra de tal ordem, que dir-se-ia tratar-se de uma gigante discussão. Oh “Olho Vivo” o que é isto? diz o Criatura de câmara em punho, divertidíssimo com a minha expressão, filmando a praia que me faz romper de repente em altas gargalhadas . 

A praia está repleta de centenas de pessoas, que cobrem completamente o reduzido areal com gritos, corridas e gargalhadas. Os miúdos urinam e defecam sem cerimónia, enquanto as mães os seguram de cócoras. Uns tomam banho vestidos, outros semi nus, outros de fato de banho. Não se vislumbra um branco por entre a mole humana que articula os mais diversos sons e gesticula. Novamente sou tomada pelo riso enquanto avanço por entre a multidão fazendo festas aos miúdos que saltam à minha volta, à medida que penso o que seria um branco racista no meio daquela multidão escura imbuída duma euforia quase histérica. 

A energia é contagiante e sinto-me em casa. Isto é, não me sinto uma estranha e poderia perfeitamente ficar ali muito tempo, se fosse dada a apreciar a confusão de multidões. Posso até avançar que me sentiria muito pior num hipermercado cheio em Portugal. No entanto apesar de o meu primeiro banho de multidão em Cabo Verde, ter sido positivo, decidimos que não…muito obrigado! Domingo não é um bom dia para ir à Prainha na cidade da Praia.

Viajamos então para S. Francisco, a cerca de 10 km da saída da cidade da Praia. No caminho algumas árvores raquíticas e pouca vegetação amarelada e seca. Entramos na água pela primeira vez. Agradável surpresa. É morna. As ondas estão um pouco agitadas, o que não me tranquiliza muito. Talvez pelo facto de me sentir numa ilha ou talvez por não conhecer a praia. Afinal acabamos por permanecer pouco tempo. A areia é suja e escura, sinal também da remanescência vulcânica que originou a própria ilha. 


Começa a chegar também demasiada gente que foge ao calor no fim de semana. Fazem-se churrascos ao ar livre em plena praia. As pessoas transportam os mais diversos haveres, desde garrafões de água a bidões, passando por botijas de gás. Passo a passo uma espécie de “bidon plage” instala-se à nossa volta.


Chegam camionetas abertas e toyotas Hi-Ace. Os “iáces”, assim chamado pelos cabo-verdianos, vêm repletos de gente jovem. Aos 15/20 em cada camioneta de caixa aberta, sentados onde podem, com uma alegria contagiante.



Os “iáces”, são uma espécie de transporte colectivo/táxi onde cada um paga a sua parte e que podem ser abordados em qualquer parte no caminho para que entre mais um passageiro. Há música. E há quem cante e dance juntando-se ao barulho das ondas. Depois de uma semana de trabalho os parcos recursos não permitem mais do que uma ida à praia e daí esta enchente eufórica/histérica. Ok. Decidimos que sábado e domingo não são bons dias para irmos à praia.


Regresso a casa. Duche. Um bem precioso, apesar de tudo com água pouco abundante. A água nunca tem muita pressão, é pouco mais que um fio. Preparo uma rápida refeição. A Menina mulher maquilha-se do alto dos seus 14 anos, copiando laboriosamente a imagem da sua mãe, da qual sou amiga e que me faz rir por vezes ao insistir em maquilhar-me, de cada vez que saímos juntas. Vamos hoje assistir ao tal Concerto do Tito Paris.


Decidimos ir mesmo às 20h00, hora anunciada para o início do Concerto, embora o Criatura preveja que comece um pouco mais tarde. A expectativa deste ponto alto nas nossas férias, faz com que queira ir mesmo um pouco mais cedo, antes das 20h00, convicta de que não posso perder um momento desta actuação do Tito Paris.

Chegamos ao referido Pavilhão, aliás barracão, surpreendidos pelas escassas viaturas que vislumbramos no exterior. Que se passa? Terá sido cancelado? Começo a perceber que há sempre algo a acontecer de imprevisto em Cabo Verde. Afinal à entrada recolhem os nossos 3 bilhetes e logo se gera uma confusão entre os dois porteiros, um porque achava que tinha que rasgar ao meio, o outro porque queria conservá-los inteiros consigo.

Entramos. Umas quantas mesas dispostas à direita de forma casual. À esquerda vários assentos, cadeiras de madeira, em plateia, encostada a uma parede, tipo “baile da Paróquia” ou antigo bailarico de colectividade. Ao fundo ligeiramente à esquerda, o palco de grandes dimensões, com a competente aparelhagem de som, faz antever pela ausência dos músicos, que a coisa está demorada.


Afinal além dos bilhetes pré comprados a 1.500 escudos cabo-verdianos cada bilhete, era necessário reservar mesa, o que já não era possível, pois todas se encontravam reservadas com o respectivo dístico à excepção de uma, sem toalha onde resolvo que nos devíamos sentar sem demora ou restariam as cadeiras do “baile da Paróquia”.



A Maria, filha da Rosa senhoria, acabara por aproveitar a nossa boleia para o Concerto a que iria assistir com uma amiga, que entretanto não chegara e não atendia o telemóvel. Vamos percorrendo com os olhos as figuras que entram. Chega a amiga da Maria com os pais, na altura em que já se esgotava a minha conversa de ocasião, a minha e a da Menina mulher, pois o Criatura continuava um dos seus monólogos dissertando, sobre a humidade do ar, e a mestiçagem dos cabo-verdianos.


Pelas 21h30 a Maria levanta-se e vai acompanhar a amiga para junto dos pais já instalados nas cadeiras “baile da paróquia”. A Menina mulher sopra, boceja, sopra. Eu já não encontro posição para estar sentada, mas está fora de questão largar as cadeiras agora que já se encontra uma centena de pessoas de pé rodeando-nos. Do espectáculo, não há notícia. Passa-se mais uma interminável meia hora e finalmente o Criatura decide ir buscar ao bar umas águas, já que ninguém se aproxima para servir.



Cerca das 23h30, três horas e meia após a nossa entrada, já todos bufamos, bocejamos, suspiramos. Dá-se então um acontecimento inesperado. Os músicos entram em palco e começam a tocar. O Tito Paris entoa uma canção, aliás para mim desconhecida e desaparece em seguida. O Criatura , conhecendo o meu mau feitio, aconselha-me em surdina a não comentar o assunto em voz alta, quando já comento que devia haver um livro de reclamações. – Pois mas és tu que estás na “terra deles” e não o contrário – Fico sempre irritada com esta subserviência e digo-lhe que para mim a terra é de todos e que os cabo-verdianos também protestam em Portugal.

Chegam alguns engenheiros colegas do Criatura, com quem comento a minha indignação, que se apressam a concordar comigo e a dizer que alguém irá pedir contas do sucedido até porque havia alguns jornalistas presentes. Ven do que os colegas concordam comigo, o Criatura vai-me apresentando alguns conhecidos que vão chegando, mapesar de passarem 4 h do início previsto do espectáculo. Não posso deixar de notar o facto de toda a gente o tratar por senhor ou doutor Criatura, à excepção de uma arquitecta nativa trabalhadora do Banco, que o trata familiarmente por tu.



Será este um dos motivos para nunca me ter levado à empresa durante a semana? Não consigo parar a minha imaginação depois do abandono que senti com a ida dele para Cabo Verde e depois de me ter aliciado várias vezes com a viagem a brusca decisão de que já não queria que eu fosse. A decisão da filha de não ir sozinha caso eu não fosse teria sido um dos motivos da decisão final?



O concerto que deveria ter sido um dos pontos altos da viagem foi uma frustração. O baile da Paróquia instalou-se com uma galeria de horrores, refiro-me aos “modelitos” tipo capa de revista pré 25 de Abril, apresentados por algumas presentes, que se iam misturando com a “fina flor” cabo-verdiana, de algum modo ali representada. Soube depois que o “baile” terá durado até cerca das 6h00 da manhã, com mais algumas (poucas) intervenções do Tito Paris.


LIVRO actualização do Blogue dia 28/11/2016


- CAPÍTULO IV -
Incursões na ilha de santiago

Domingo decidimos ir novamente experimentar a Praia de S. Francisco.   Pelo caminho surpreende-nos uma manada de vacas, que decide sem cerimónia e sem guarda, atravessar a via rápida por onde nos deslocamos a S. Francisco.   Os animais parecem aqui saber os caminhos e não necessitar de condução. Temos que parar para as deixar passar, numa descida de alta inclinação no meio da via rápida.   Este episódio haverá de repetir-se várias vezes nas nossas incursões ao interior da ilha, com vacas,  com cabras e com porcos,  quer nas vias rápidas quer nas estradas que atravessam as povoações. Para mim é sempre motivo de alegria poder observar como se comportam e movimentam os animais. Nasci e cresci em Lisboa e uma simples ovelha faz crescer em mim um não sei quê de profunda ligação à terra,   à natureza,   que me põe sempre uma estúpida expressão de felicidade no rosto.

O Eduardo, o meu primeiro companheiro, depois do divórcio de um casamento de vinte e sete anos realizado a treze dias de fazer dezasseis anos, dizia-me, “olha a minha “munina”,  tão feliz por ver os “biços”. Falávamos como as crianças e tenho saudades dessa pureza intrínseca que encontrávamos um no outro.  Vou no quarto “marido” embora só me casasse com o primeiro, mas de todos os três anteriores, conservo apesar de algumas coisas más, memórias boas de momentos de amor e partilha e por vezes tenho saudades deles.

Na Prainha da cidade da Praia, que iremos frequentar durante a semana,   raramente há ondas e quando as há existe sempre aliado um sentimento de segurança por se tratar de uma baía.   Parece que entramos no ventre de uma mãe de águas mornas,   ondulantes e seguras. Aliado a essa sensação de conforto, inunda-me sempre um outro estranho e profundo sentimento de “irmandade” com os cabo-verdianos.

Aquelas crianças que gritam e chapinham na água,  os adolescentes mais escuros,  tão iguais aos nossos, aos meus filhos, na alegria, nas brincadeiras e nos risos. A comunhão empática dos adultos, que sorriem para nós e metem conversa em crioulo e português à mistura.

Não sei como explicar isto, mas parece que se sente o ADN comum de uma forma profunda. Aí senti mais do que nunca que somos todos irmãos, que há só uma raça – a humana. Deitada na água a boiar, vejo esse pai céu em cima e sinto nesta água morna, uma barriga de mãe que me embala, enquanto rimos e brincamos na água, bebés e velhos. Uma mesma alegria, ingenuidade, e entrega como se essa mãe terra em baixo, nos acolhesse no seu ventre mar e todos fossem crianças.

Ao chegarmos a S. Francisco o mar apresenta-se revolto com grandes ondas de água quente. O Criatura e a Menina mulher não desistem e apesar da ameaça de chuva latente quase a abater-se sobre nós, metem-se à água e chapinham felizes.  Da minha toalha, fico inundada de um sentimento de gratidão ao observar a alegria deles. Ondas grandes  para mim não, muito obrigada.

Para o Criatura apesar de estar há 5 meses em Cabo Verde, é o 3º dia de praia,   pois diz ele que sozinho não tem a mesma graça. Além disso parece-lhe inseguro frequentar a praia,   caminhar à noite o que quer que seja,   sem a segurança do policiamento que é feito em todo o sítio, a toda a hora, durante os meses de Verão, por causa dos turistas.

Durante toda a semana em que eu e Menina mulher frequentávamos a Prainha da Praia,   sempre estiveram presentes dois agentes da polícia, fardados e sempre dois ou três nadadores salvadores. Por duas ou três vezes quando me afastava a nadar de costas muito para fora de pé, um deles de cima das rochas fazia-me imediatamente sinal com a mão para vir mais para terra. Se eu não obedecesse de imediato o gesto era seguido por um apito estridente.

Se acaso perdia de vista Menina mulher e por momentos a minha expressão demonstrava preocupação, logo alguém me fazia sinal de longe apontando onde ela estava. O entendimento telepático e gestual é muito mais desenvolvido ali. É muito interessante.

De volta a S. Francisco, fico-me pela areia escura de terra vulcânica, mas também suja pelas constantes excursões.  Realizadas em magotes, estas excursões, com os seus piqueniques e churrasqueiras acompanhados de lixo e desperdícios que vão ficando no areal, no fim de cada festa, contribuem para o escurecer cada vez mais.  Voltamos quando uma chuvada começa a abater-se sobre nós e todo o caminho é já percorrido debaixo de chuva.  

Durante a noite somos acordados várias vezes com o ruído da chuva que cai a noite toda,  sem que contudo a temperatura baixe. O ruído ensurdecedor da chuva tropical,  aliado ao calor insuportável, torna esta noite uma das piores da nossa estadia.

Tínhamos delineado mais ou menos como decorreria a nossa semana. O Criatura, trabalharia a primeira semana de Agosto e estaria de férias na segunda. Assim, pouco nos restaria além da praia e do supermercado Fenícia,  uma espécie de Centro Comercial,  com um Café simpático. 

Na cidade da Praia existe apenas um cinema,   igualzinho ao antigo cinema Odeon ou Condes de Lisboa, completamente decrépito. Pode funcionar de 15 em 15 dias ou de mês a mês,   consoante a procura dos filmes em cartaz,   a projectar sabe-se lá quando.  Destes filmes, apenas dois nos poderiam interessar e o primeiro deles estava anunciado para o final da primeira semana.

Planeamos ir na 2ª feira à praia e ficarmos pela tarde no Centro Comercial, por ser mais seguro, não andar pelas ruas, segundo opinião do Criatura,  fazendo  tempo até às 17h, quando nos viria buscar. Além disso, se não queremos ficar fechadas em casa, o calor insuportável empurra-nos irremediavelmente para locais onde haja ar condicionado.

A chuva gorou-nos os planos.   O céu cinzento chumbo prometia mais. Além disso a chuvada que caíra durante a noite toda,  deixara as praias da cidade sujas e impraticáveis.  Toda a sujidade e lixo acumulado nos ribeiros, anteontem secos, que descem as encostas da ilha, foram arrastados até às praias pelos leitos dos ribeiros,  agora tornados líquidos.

Como a África é constituída por imprevistos, no dia seguinte, terça-feira,   acordámos com uma radiosa manhã de Sol,   as praias limpas como por magia, (foram as marés ?) , e a cidade calma,  feliz e grata pela chuva abundante que abençoara a terra. 

Por toda a parte as mulheres vendem as suas mangas a 20 escudos cada. Cerca de 2 euros por 10 mangas deliciosamente perfumadas. Tomamos o café e comemos um pastel de nata com canela no Pão Quente, não sem antes termos comido a nossa peça de fruta e um grande copo de água engarrafada antes de sair de casa. 

A Menina mulher, sempre a fazer-me sorrir, solícita : - Pai comes laranja? - Gina  comes laranja ?  manga? Bebem água ? Querem torrada ? Ritual da manhã que me faz sorrir todos os dias,  enquanto faço a toillete no piso superior.

Como sou eu que preparo sempre todas as refeições que fazemos em casa, ela decidiu, simpaticamente, tomar a seu cargo o pequeno-almoço.  Como represália à preguiça chauvinista do pai,  desde sempre criticada pela mãe da Menina mulher,  de quem fiquei amiga logo que nos conhecemos. Nos primeiros dias ela só punha a mesa do pequeno-almoço para nós duas, mas depois de algumas observações bem dispostas da minha parte, e de verificar que eu ia colocar as coisas no lugar dele,  desistiu e começou a pôr a mesa para todos. Levantar a mesa, fora de questão.  Sempre uma polémica para forçar o pai arrumar as coisas dele ou a cadeira, na qual eu também colaborava divertida. E o Criatura – estou arranjado com estas duas! Pois então!  A minha parceira Menina mulher não é para graças! Foram assim mais ou menos iguais os dias de semana em que o Criatura trabalhou. De manhã praia até às 12H30. À tarde café do Fenícia, onde aproveito para escrever no meu Diário, enquanto a parceira lê um livro.

A praia ao dia de semana é outro cenário. Não parece que estamos no mesmo país. Apenas alguns turistas provenientes do Hotel ao lado da Praia e poucos locais, geralmente da classe média. Gente da ilha, que veio de vários países, de férias, imagino. Alguns acompanhados pelos filhos e alguns adolescentes em férias escolares, alguns provenientes de outras ilhas.
Como o Luís com quem fizemos amizade. Um miúdo muito engraçado da ilha de S. Vicente, estudante de psicologia e que se “apaixonou” pela Menina mulher. Almoço em casa preparado por mim. Tarde no supermercado, Café,  ou cibercafé para estarmos duas horas na Net a falar com os amigos e a ver emails.

Na praia invariavelmente “os galãs” cabo-verdianos,  numa atitude repetitiva e maçadora,  lançam-se à água mal nos vislumbram a nadar, ou se já lá estão, aproximam-se – A água está boa? – És portuguesa? Há-os de todas as idades, desde os 15 aos sessenta anos e ao que parece sem preferência de idades. Ou seja as preferências iam tanto para mim como para a acompanhante que aparenta na praia ter 18 anos. No meio desta invariável verborreia, alguns episódios engraçados que nos fizeram rir a mim e à menina-mulher a boas gargalhadas. 

Refiro aqui um deles pela graça que teve.  Um dos galãs mais ou menos da minha idade, ligeiramente mais novo, começa a invariável introdução ao diálogo – Olá,  está boa a água ? Respondo -  está.  Está quentinha .  – És portuguesa? Sou. De Lisboa?  Sim de Lisboa. Já lá foste?  -  Não ainda não,  mas já vivi com uma portuguesa. Agora ela foi para o Brasil.  E com uma expressão de criança … - tenho tantas saudades dela… fazia uma comida tão boa … bacalhau.  Ai meu Deus,  bacalhau à Braz,  bacalhau à Gomes de Sá.  Aquilo é que era comida. Claro que nos fartámos de rir todos à conta deste episódio. 



- CAPÍTULO V -
Memórias menos felizes


Nem tudo são rosas. Tento apagar da minha memória outras memórias menos felizes, mas às vezes uma cortina de tristeza e sofrimento desce sobre o meu rosto e coração.

Quando ele me disse pela primeira vez que lhe tinham oferecido um trabalho em Angola, reagi de imediato fazendo-lhe perceber que não tenho estrutura emocional para relacionamentos à distância. Convenci-me que ele tinha entendido isso e também teria percebido que a nossa relação chegaria ao fim se houvesse um tal afastamento. Parece que no entanto só recusou ir para Angola porque já lá tinha estado e as coisas não correram bem. Um dia sem saber como intui que iam convidá-lo para ir para Cabo Verde. E disse-lho. Não sei porquê mas acho que vão convidar-te para ires trabalhar para Cabo Verde. – Era bom, era! Mas não estou bem a ver.

Percebi que falava a sério e nesse momento também entendi que ia acontecer mesmo e que teria de o deixar partir, significasse isso o que significasse.

Três dias depois telefonou-me de casa para o trabalho. A minha casa segundo ele, a nossa segundo eu. – Não vais acreditar! e eu – Convidaram-te para ires trabalhar para Cabo Verde. – Como é que sabes? – Sei. Um silêncio.

– Não posso recusar. Não estou em condições de recusar. O que achas? – Que queres que te responda? Se não estás em condições de recusar, que queres que te diga? Que posso eu dizer-te que não te tenha já dito? – Tenho que aceitar. Estou desempregado há ano e meio, com um subsídio de desemprego pequeno a acabar.

– Mas tens a tua casa alugada. Podes procurar outra coisa. Não estás assim tão mal. Há coisas mais importantes que o dinheiro. E se de repente um de nós morresse? Se tivesse uma doença incurável? De que serviria o dinheiro? Com a nossa idade não é altura de viver relações à distância. Depois eu nunca me teria envolvido contigo se soubesse que me ias deixar sozinha. Não fiz essa opção de vida. Nunca quis viver sozinha, chegar a casa à noite, encontrá-la às escuras e deitar-me numa cama vazia. Foi essa tua inércia e as horas inúteis que passaste a jogar cartas frente ao computador que nos fizeram chegar a isto. Porque não fizeste nada durante um ano e meio para o evitar? Porquê? Gritei e perguntei até que a garganta me doesse e nada do que disse lhe fez mudar a decisão que já estava tomada.

Partiu em duas semanas deixando-me com a promessa de que em breve viria cá (3 meses) e que eu iria passar com ele um mês de férias inteiro a Cabo Verde.

No dia da partida chorei amargamente nos seus braços. Vi que também estava comovido. – Vai passar num instante verás. São só três meses e estou cá outra vez.

Só três meses. Para ele, só três meses. Para mim noventa noites de solidão, de sensação de abandono. Do meu antigo medo de solidão e rejeição. Noventa noites mal dormidas entrecortadas de soluços, de espaços vazios, de uma cama fria, da ausência de braços que me abraçassem, de conforto, de sexo, de carinho. Noventa noites em que os pássaros gritam nos meus sonhos e os transformam em pesadelos. Noventa noites de gritos mudos, de assombros, do medo de ficar sozinha, de perder o viço e acordar um dia sem sonhos, sem carícias e sem vontades.

Os dias sempre iguais sem incentivo para viver. Sem uma estrada paralela, onde caminhe o outro como um eco de nós, que nos prova que estamos vivos. Que não atravessamos a vida como um sonho. Pois alguém o comprova. Está ali alguém para nos beliscar e dizer que estamos vivos. A vida nunca me fez sentido, sem este eco, sem este espelho, sem este muro, que por vezes tenho que saltar para provar a mim mesma, que consigo ir e vir para e do outro lado. Como se fosse um lado só. Sendo embora dois completamente distintos, na essência, na forma e no objectivo de vida.

Ao fim de cerca de um mês em Cabo Verde, o discurso do Criatura começou a mudar inesperadamente e com isso também percebi que estava com um homenzinho e não com a pessoa especial da minha vida. Sem que eu nada tenha feito para que isso acontecesse, havia frases bruscas, um cortar de discurso inusitado que me deixava perplexa, e perpetuava a minha sensação de abandono e insegurança.

Comecei a andar sobre brasas, literalmente. Começara a fazer caminhadas e práticas meditativas xamânicas que me levavam cada vez mais fundo, dentro de mim, ao fundo de mim e com elas e com esses mergulhos fundo, fundo, vinham ao de cima todas as feridas do passado pedindo para serem curadas. 

Desde o pré nascimento fui alvo de rejeição por parte da minha mãe e em criança de certa forma de abandono. Sempre me imputou a culpa de ter nascido, e com essa certeza de não ter sido desejada, a sensação de estar a mais, de não pertencer ali. Nunca me atrevi a abrir uma gaveta na casa de minha mãe. E noto agora que digo a casa de minha mãe até hoje. Nunca a senti como a minha casa.

Fui sempre uma intrusa no meu próprio espaço, no espaço onde nasci. Nem sequer era a casa de meu pai. O meu pai a quem ouvi nos momentos de angústia, quando chorava ao pé de mim e a quem eu consolava, do alto dos meus cinco ou seis anos. Dizia em soluços referindo-se à minha mãe – Quando a conheci trazia umas alpercatas calçadas. 

A minha mãe que por vezes desaparecia, sem deixar rasto, não sem antes ter provocado uma violenta discussão à qual presidia com vantagem. O meu pai chorava então amargamente e soltava frases, para mim, à época, sem sentido. – Paizinho, paizinho, não chores, dizia-lhe aflita fazendo-lhe festas no rosto. – Paizinho, dizia tentando desviar-lhe a atenção – o que são alpercatas? - Uma espécie de sapatos de pano, que aquela miserável trazia calçadas, quando a conheci.

A minha mãe que tinha 24 anos a menos que o meu pai, teria mais de 30 pares de sapatos, casacos de peles e estolas e todos os anos vinha durante uns meses uma modista a casa fazer as toilettes. Durante anos abominei tudo o que parecesse com toilettes femininas e vestia-me como um rapaz, mesmo depois de ter casado, durante muito tempo. Só muito mais tarde viria a perceber o que levaria a minha mãe a comportar-se daquela forma. 

Um dia o meu pai também partiu.Deixou-me com treze anos entregue à minha sorte e à mãe madrasta, que me rejeitou então mais do que nunca. Dizia – E deixei eu isto vir ao mundo à espera de uma herança. O pai tinha a mania que ela era muito inteligente. Há-de sair daqui uma grande coisa! Outras vezes se eu chegava a casa, normalmente regressada da escola, com ar feliz – De onde é que vens vadia? Vai pôr-te a passar a roupa a ferro minha porca. Estes apupos e piores, foram companheiros da minha adolescência desde a altura em que o meu pai teve uma trombose e deixou esta dimensão.

De repente deixei de ser a menina do meu pai, a filha do senhor Artur, e que era chamada de menina Gininha pelos vizinhos, para passar a ser qualquer coisa.

O não ter sido uma criança desejada, pela minha mãe,  fez com que me sentisse sempre uma espécie de intrusa na minha própria casa. Aliás senti sempre que não estava na minha casa, quando estava só com a minha mãe.

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TEXTOS E TEXTOS / POEMAS

O CÃO 
(Comentando o Facebook)

Coloquei ontem no Facebook, um vídeo que falava de um pequeno cão, que seguia a ambulância que transportava o seu dono, vitíma de uma convulsão. O pequeno animal seguiu a ambulância, que circulava devagar, aparentemente por alguns Km. O condutor da ambulância e o enfermeiro que acompanhava o doente, tentaram demove-lo, parando inclusive o veículo e enxotaram-no, mas o bichito não desistia e continuou a perseguir o veículo interpelando-o pela frente quando teve que fazer uma paragem, impedindo-o de avançar, sem o atropelar. Finalmente os técnicos, parecem condoer-se do animal, que poderia ser atropelado a qualquer momento, e deixam-no entrar e acompanhar o dono. Entre os comentários e gostos, uma senhora comenta que há dias tentou acompanhar o próprio filho na ambulância, o que foi recusado. Eu penso: sim mas se me recusarem acompanhar um parente próximo, eu tenho capacidade de decisão e saberei o que fazer em seguida, embora possa não estar capaz de conduzir, não ter dinheiro para ir de táxi, etc... mas o pobre animal, vendo o seu dono em perigo, e impossibilitado de o acompanhar, o que sentirá?

Estás a ler, diz-me o que pensas disto? Queres comentar?


A derrocada do DISCURSO INOVADOR

A mulher do discurso pirâmide foi construindo o seu edifício pacientemente desconcentrando os ouvintes, transformando-os em bocejos e suspiros. Alguns de tanto tentar penetrar a força das palavras até adquiriram torcicolos.

Colocou primeiro as mais pesadas, suficientemente impenetráveis e coesas na base. Depois foi construindo metodicamente, umas a agarrar as outras sempre sobrepostas. 
Suficientemente sólida a parede das palavras, foi construindo mais três, que se amparavam à primeira, sempre com estudada inclinação e peso para que o interior OCO ficasse protegido de intromissões.

Terminava a construção, já os topos mais vulneráveis, por terem sido construídos no final com outro tipo de palavras mais leves e banais, quando da assistência hipnotizada com a força da erudição palavreática alguém teve de dizer alguma coisa para o discurso não parecer tão oco como o interior da pirâmide.

A voz da criatura soou encantadora por cima da assistência, qual flauta de Krishna. A assistência adormecida, sem atentar ao conteúdo, mas seguindo apenas o som. De súbito, alguém deu pelo espírito santo da orelha e ouviu claramente:

- A linguagem poética vai acabar. Agora só podem utilizar-se metáforas eruditas, abstractas e suficientemente dissimuladoras de intenções!

De repente a mulher que tinha espírito santo de orelha e língua de serpente soltou uma voz meio desconexa:

- Ora, isso não tem nada de inovador. Já se fazia no tempo da outra senhora, utilizarem-se metáforas eruditas, abstractas, e suficientemente dissimuladoras de intenções...

Os olhos da mulher que fazia o discurso faiscaram. As palavras caíram todas.

E toda a pirâmide se desmoronava, perante a assistência pesarosa. Afinal um edifício tão coerente e sólido...

No centro da pirâmide estava um homem.   Enrolado sobre si mesmo na posição fetal os pés a as mãos juntos acorrentados com uma grilheta de palavras. O olhos perdidos sem LUZ, reflectiam o cérebro dissolvido pelos esforços exercidos a desmontar as palavras radioactivas.

Em torno de si revolteavam borboletas de cores, azul metálico, verde alface, amarelo jasmim e rosa fucsia.

Eram os sentimentos que na ânsia de beber as palavras enganosas radioactivas, o homem sacudira violentamente.

Na sua pequenez, tornava-se enorme pela força das palavras. Semicerrando os olhos ver-se-ia uma crista reptilária que lhe subia ao topo da cabeça, e ainda as palavras verdes radioactivas lhe prendiam os pulsos e os tornozelos - estão verdes não prestam - mas eu não sou raposa - já as borboletas tinham descoberto um escorrega de LUZ e entravam pela boca, pelo esófago envoltas numa luz matutina ainda húmida e dando volta em bailado sincronizado qual clave de sol  iam rodopiando à volta do coração preenchendo-se de uma luz branca e dourada que se distendia a todo o corpo.

Por fim todo o corpo do homem era luz. Passou de opaco a transparente, deixando ver todos os orgãos que pulsavam regulares, após o que se transformou numa massa incandescente.

As radioactivas soltaram-se guinchando e fugiram a sete pés (cem) parecendo centopeias.

Atarantada (atarantulada) a insignificante mulher com língua de serpente inclinava o pescoço para um só lado, incapaz de dizer sim ou não e  balbuciava palavras incoerentes sem perceber todo o processo, nem qual seria a sua missão ali...  


Procura alguém com imaginação para escrever textos diferentes?


Estou aqui! virginiadesa@gmail.com



8 comentários:

  1. Olá, Poetinha, estou a ler isto aos bocadinhos... Depois comento mais!

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    1. Obrigada Álvaro! Até que enfim alguém que diz alguma coisa :-).

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  2. Olá Virgínia. Já li uns bocados e aquilo que li gostei. É recente ou já tinhas guardado?

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    1. Olá Virgílio :-). Obrigada por leres e por teres comentado. Algumas coisas já tinha escrito. Algumas tenho publicadas, em várias Antologias. É o caso dos Poemas. Outras vou escrevendo. Por isso a importância do incentivo. No caso do Livro, comecei a escreve-lo numa viagem que fiz a Cabo Verde, onde passei um mês de férias, em jeito de Diário. Estou a reescreve-lo, colocando memórias e algumas novidades. Espero que gostem de conhecer este ser humano que aqui se apresenta com os seus defeitos, qualidades e fragilidades. Da realidade à ficção, o leitor descobrirá. Espero também que tenham paciência de ir voltando ao Blogue, que por vezes se encontra em construção ou em "rascunho". Obrigada por me leres! Abraço-te na arte.

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  3. Olá Virgínia. Gostaria de poder comentar a totalidade da escrita que aqui se me apresenta. Bom gosto ou requinte nas ideias e palavras e uma verdade que nos toca por vezes duma forma saborosa, alegre e por vezes cruel. Cruel não pelo sentido, mas pela sensação de que ainda nos falta a coragem de pensar sobre certas situações que só passando por elas nos tornam ou não personagens das estórias.
    Posso dar o exemplo do cão e do seu dono. Um cão é um cão, alguém dirá sem pensar sequer o que é na realidade um cão. Mas um filho ou qualquer outro ser humano não é um cão. Já partilhei O meu lar e vida com alguns cães, alguns até daqueles com alma, mas peço desculpa se a minha preferência vai para os irracionais que segundo dizem são desprovidos desse dom dado por uma identidade, que nem sei se existe, ao HomoSapiens. Num mundo que eu pretendo que seja perfeito, um simples cão, dito irracional e com um vazio de espírito, é, afirmo, um filho nosso que temos a obrigação de proteger e um pai que nos protege nem que seja à dentada. É desta dádiva e de se tratar de entendê-la que se explicam as atitudes de todos os cães com alma ou não. É preciso ser irracional e talvez sem alma para se fazerem analogias como essas entre um ser canino e um ser humano.
    Gostei. BJ.

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  4. Olá Carlos :-)! Muito grata pelos seus comentários. Espero que continue a visitar o Blogue. Prometo surpreende-lo a cada vez. Sobre o cão e sabendo que o Carlos ama e respeita como eu os animais o seu comentário não me espanta. Na verdade também eu sinto os meus animais como filhos. Filhos para amar, sem sufocar, nem obrigar a fazer o que quer que seja. Dos cães como dos filhos, não somos donos. Os filhos os parimos ou os fazemos, mas eles não são nossos, são seres que trazemos ao mundo e sendo o veículo que os traz somos tão responsáveis por um filho como por um cão que um dia decidimos trazer para a nossa vida e da mesma forma quando os trazemos à vida ou à nossa vida, tornamos-nos responsáveis pelo nosso acto. Ainda que quando um filho atinge a idade adulta passe a gerir a sua própria vida e o cão esteja impossibilitado de o fazer, desde que tomámos o seu espaço, quando há milhares de anos o domesticámos. De qualquer modo o cão será sempre fiel, grato e amigo do seu "dono", coisa que nem todos os filhos conseguem ser ... Abraço e obrigada Carlos. Espero em breve vê-lo no Teatro! Tenho saudades da sua dinâmica! Beijinho. Gina.

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  5. Bravo cariño. Enhorabuena. Por fin te decidiste a llevar a cabo este blog. Veras como rápidamente llegaras a ese punto en que cada palabra tuya se convierte en un regalo para quien te lea. Bien es verdad que no soy yo, el mas indicado para mandarte flores y halagos por lo que dejaré que sean tus lectores quienes vayan cubriéndote de honores.

    Sé que escribir provoca en ti una satisfacción íntima, muy difícil de explicar para quien no la siente. Creo que por supuesto una obra tampoco está completa sin la mirada aguda, critica o beneplácita del lector, por lo que espero que mucha gente te dé su opinión al respecto de lo que vayas escribiendo para ellos.
    Voy a terminar mi comentario parafraseando otra Virginia muy conocida del gran publico.

    "La verdad es que escribir constituye el placer más profundo, que te lean lo que escribes es sólo un placer superficial." Virginia Woolf.

    Continua así, no pares. Sé tu misma. Cuenta, relata, escribe y haz soñar...

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  6. Gracias cariño mio :-). Afinal não é necessário ser bloguer para comentar, basta fazê-lo através do google. Espero que mais gente comente!

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