segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

E VEM UMA FOLHA

 E VEM UMA FOLHA


E vem uma folha,

Rodopiando, dourada e castanha

 

Ao mesmo tempo, faz-me pensar outono, decadência, 

o que precede a velhice, 

as artrites, as artroses e as atrozes dores nas costas, 

nas cervicais, nos pés, nos tornozelos e noutras coisas mais. 


O medo da solidão...


Ah o medo da solidão!


Das noites frias, sozinhas, e caladas. 

Das noites caladas em que as palavras não ressoam nas paredes nuas, 

Das minhas mãos que já não têm as tuas, 

Das bocas engelhadas, desdentadas.


Das mulheres esventradas que entram paredes dentro como facas afiadas. Dos sonhos perdidos, dos pesadelos, dos gritos e dos grelos. 

Crescendo nos vasos de terra estéril com desvelos...

                                                                         de velhas a arrancar cabelos! 

O medo da falta do teu corpo sobre o meu,

A arrancar gemidos e gritos e pedidos. 

As asas de um corvo sobre a chaminé. 

E os fantasmas que não arredam pé. 

E os gritos! Todos os gritos mudos que não dei. 

E todas as palavras que calei. 

Por não ter quem ouvisse, tudo!


 



Príncipes e Sapos



Às vezes a chuva bate forte.

Fica a doer no corpo como um laço de corda.
A corda fica bamba.

E bamba , a corda bamba e eu balanço nela e cheira-me à canela.
Como um doce de arroz onde se prende a trela.
Há sempre uma panela na cozinha, que cozinha .
Ao canto da cozinha um sapo que é uma rela.
Ferve panela!

Há sempre um príncipe que nunca entrou nela.

Ferve sapo, vira príncipe.
Arde fogo na panela. Cozinha a rela.

Tira-me a sela! Solta-me a trela!


terça-feira, 26 de janeiro de 2021

 


PANDEMIA


Aqui estou eu, sozinho

A meia lua do olho em baixo, o olho revirado para o teto, para os cantos,

buscando agora nalgum canto uma ameaça de bolor.

Lá fora a vida. A morte? 

Mastigo uma bolacha de água e sal. A barriga distendida pelas horas de sofá.

Na televisão repetem sem cessar os mortos do dia, os mortos da semana, os mortos do mês, os mortos do ano, os mortos da cidade, os mortos do país, os mortos da Europa, os mortos do mundo.

E eu mastigo a bolacha entediado, enjoado de tantos mortos, de tantas seringas e de tantas promessas de crise futura.

Ela foi-se embora. Para casa da mãe, da irmã ou para a pata que a pôs. Mas foi-se. Foi-se e deixou-me aqui, com as bolachas de água e sal, o gato com dezoito anos e eu com os meus sessenta.

Levou os vestidos, os casacos, a loiça do enxoval que trouxe quando juntámos os trapinhos. Levou as promessas, os sonhos, o cantarolar da manhã, o pássaro a debicar no muro as migalhas do pão. Levou a almofada amachucada onde os seus cabelos deixavam uma mancha escura e farta. Levou os olhos rasos de água de quando ouvíamos música e levou os choros, as suspeitas e os ciúmes. 

Eu e o gato, aqui, no sofá a cheirar a morte pela televisão, 

até que uma manhã de primavera traga outra vez o sol.

 



Agora que o Carlos do Carmo partiu, lembrei-me de um fado canção que me fez sentir aos vinte e poucos anos uma grande compaixão pelos idosos. Vinte e poucos anos e aquele fado fez correr lágrimas sentidas no meu rosto.

Lágrimas de compaixão pelos velhos, sempre mais esquecidos, mais vulneráveis, mais pobres, senão materialmente, ao menos de afetos, de carinhos, de uma festa ou de um sorriso.

No fado, “Balada para uma velhinha”, Carlos do Carmo cantava, com letra de Ary dos Santos, "no banco do jardim uma velhinha, está tão-só com a sombrinha, que é o seu pano de fundo... Num banco de jardim uma velhinha está sozinha, não há coisa mais triste neste mundo… já coseu albergadas e bandeiras, verdadeiras... amargou a tristeza até ao fundo".

Hoje também eu, "velhinha", sessenta e dois anos feitos, pergunto-me o que tinha aquele homem para me tocar tão profundamente aos vinte e tantos anos, que me fazia chorar por aqueles velhos tristes quando os via sentados num banco de jardim, à espera… de quê? E sim, às senhoras pode e deve-se perguntar a idade. Não há nada para esconder no facto inexorável de se ter envelhecido.

Felizes aqueles que chegam a envelhecer e ainda assim continuam a crescer e a fazer coisas. Carlos do Carmo partiu, mas sempre num crescendo, deixou-nos um legado inigualável daquilo que hoje nos ensinam a dissimular e esconder. Emoções. Mas nós não somos um país canalha. Não vamos em conversas daqueles que não conseguem ter um discurso coerente porque não falam a verdade, venderam a alma à fama e ao poder e já não conseguem sentir.

Hoje chorei porque morreu um HOMEM. Chorei e senti, já "velhinha" a perda da voz que soube cantar o que sentimos. Acolhemos com amor os nossos retornados das Colónias, os nativos das mesmas, os asilados e refugiados políticos e todos os que quiseram vir viver para o nosso país. A todos estes, Carlos do Carmo cantou a nossa terra, a nossa gente. Pintou Lisboa em canção como nenhum outro o fez, mas também apelou à nossa alma, à nossa solidariedade, à democracia. E nós não somos um país canalha.

Não vamos esquecê-lo nem ao que ele representa. Liberdade e solidariedade, emoção e inteligência, sensibilidade e humildade, no fundo, um povo que é o nosso.

Não. Não somos um país canalha!

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

LAGARTIXAS

  VIRGÍNIA DE SÁ

"História de Uma Viagem ou Duas ou Talvez Não"




Capítulo XXV
Palmela

LAGARTIXAS 


... Quando comprei a casa tudo era verde. Verde selvagem, desenfreado, desordenado, lagartixas que corriam por todo o lado. De brincadeira, pensei até colocar uma placa com os dizeres “Quinta das Lagartixas”, mas depois pensei que seria uma placa enganadora. Com os seus 400m2, não chega a ser uma quinta.

No primeiro ano chorei. Não me conseguia habituar a estes muros prisão, sem vistas para a cidade, o trânsito, o supermercado em frente, o Banco por baixo, uma esplanada com sombra nas traseiras e outra com sol na entrada da frente. No meu apartamento de Carnaxide, em Oeiras, tinha grandes janelas com portadas, varandas enormes e uma vista do quarto andar desafogada e agradável. Ali nunca havia monotonia.

Depois habituei-me às lagartixas a correrem e a apanharem sol. Veio o cão, que ofereci ao Santiago como prenda dos seus 59 anos, ao fim de um mês a vivermos na casa. Mais tarde morreu a gatinha Morgana, com vinte anos, em janeiro de 2020. No início de abril do mesmo ano, apaixonei-me pelo Yoshi, um gatinho de oito meses, que vi numa foto de uma Associação em Coimbra, para adoção. No dia 8 de abril, em pleno Covid, adotámo-lo e renasceu a nossa alegria. Os bichos amam-se, brincam e correm pela casa, abraçam-se. Dormem juntos às sestas e fazem-nos felizes. Acho que aprendemos a ser felizes com eles e as coisas simples da vida.

A janela contempla agora as mudanças de estações. Uma coisa que nem tinha percebido verdadeiramente que existia, porque nem tinha tempo. Os verdes, que se tornam vermelhos e castanhos e amarelos e laranjas, as folhas que caiem, os ventos que sopram, a geada que queima. As temperaturas de menos de 5º pelas noites de inverno, e de mais de quarenta graus nas tardes de verão. E a primavera com as abelhas, as borboletas, as formigas e as lagartixas com a cauda no ar, a correr, perseguidas pelo Faísca. E a cada estação renasço…

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Aeroporto no Montijo ?? Jamais!













Aeroporto no Montijo?? Jamais!

O que vos trago não é novo e passo a citar Mário Lino, antigo ministro do PS:
 
"Montijo não tem capacidade para receber aviões de longo curso, pelo que se existe algum problema na Portela será preciso desviá-los para o Porto ou Faro. Os pássaros que andam, sobretudo no inverno, na Reserva Natural do Estuário do Tejo podem acabar por parar a ida dos aviões civis para o Montijo." 
 
Esta é uma de entre muitas afirmações pertinentes, mas mais grave do que interferir nas reservas naturais da nossa fauna (como se isso não fosse já por si só suficientemente grave), é o facto de, em caso de terramoto seguido de tsunami, o Montijo tender a desaparecer, segundo vários estudos científicos. Nem sequer é necessário ser cientista, basta olhar o mapa e constatar a percentagem de desaparecimento da costa nesta zona desde há poucas centenas de anos...
 
Na minha ignorância (não sou engenheira, nem tenho conhecimentos técnicos para avaliar impactos vários), pergunto: 
 
- Não seria mais inteligente, ao invés de proceder a medidas impopulares ao insistir na implantação do novo aeroporto no Montijo, ampliar o aeroporto de Beja, criando o já tão falado TGV?
  • Numa época em que já não é possível contestar a evidência do impacto ambiental da circulação automóvel e da circulação aérea não devíamos estar já a investir em ferrovias? Faz sentido não termos uma ligação ferroviária que ligue rapidamente o sul de Portugal, por exemplo, de Setúbal a Badajoz, a Madrid e a Barcelona?
Resido na zona de Setúbal e não encontro ninguém que diga ser favorável à criação do aeroporto no Montijo, quer pelo impacto de ruído, quer pela poluição, mas se for feito um referendo sobre ampliar as linhas ferroviárias, aposto que a medida será popular.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

O corona vírus






O corona vírus

Pode parecer que estou a ser má-língua ou a seguir alguma mania de perseguição, mas ocorre-me que este corona vírus, em primeiro lugar, possa ser algo fabricado em laboratório para disseminar uns quantos.

Ainda por cima é logo colocado "à experiência" num dos países mais populosos do mundo. Depois, ainda me ocorre como poderá dar jeito mais uma crise "a crise do após corona vírus", que "irá" deixar a economia mundial de rastos. 

Está-se mesmo a ver que se vão perder mais direitos adquiridos e os pobres irão ficar ainda mais pobres e ainda por cima contentes por terem escapado ao dito vírus. O grande capital, do qual grandes senhores são detentores, não é nada capaz disto, não senhor... eu é que sou má-língua!