DESENCONTRO
Entre a tua boca
e a minha
Há um rio.
Líquidas as palavras que não dissemos.
Escorrem por entre os dedos
as que já foram ditas
e não tiveram eco.
Dolorosa a tua ausência.
Mais ainda o facto
de não existires.
Destas viagens, a personagem principal refere também a primeira que fez para a Holanda em 1973, então com quinze anos, para seguir o seu namorado e futuro ex-marido, desertor da guerra colonial, e aqui torna-se uma referência histórica. Mas há outras viagens.
As de coração, que faz ou fez com os seus e com outros animais, as viagens que fez com os seus companheiros de mesa e de cama. A viagem que fez duas vezes para vencer um linfoma. Viagens feitas no teatro em palco. Através dos livros. Viagens xamânicas. Viagens através da poesia que sempre lhe correu no sangue.
Este livro poderia chamar-se “Os Velhos Também Amam”, ou “Viagem”, mas o leitor vai fazer várias viagens e encontrar não uma, mas quatro histórias de amor.
…Ou uma espécie de Fénix”.
IMPORTANTE: COMENTAR Para quem desconhece, pode clicar na seta de anónimo e procurar outra forma de comentar, indicando o seu nome ou URL. Caso não tenha Blogue, ou site, é muito importante assinar o comentário, pois de outra forma, não faço ideia de quem comentou. Se deixar conexão para o seu Blogue ou site, será sempre uma forma de publicitar o seu trabalho. A interação é importante, assim como o é a divulgação deste livro, que finalmente me propus lançar.
Escrito para mulheres e homens sensíveis, “História de Uma Viagem, ou Duas, ou Talvez Não”, não é um livro de metáforas.
A realidade da autora a nu, expõe sentires e sofrimentos, mas não é um livro de desesperança. É um livro de luta por dias melhores. De levantar após a queda.
É sobre esperar um abraço. Sobre chegar a velho ainda criança.
Sobre bruxas fadas que amansam dragões.
É um livro para mulheres velhas e rebeldes. Para mulheres que se rebelam, novas e velhas e para homens que querem saber mais sobre mulheres.
Amores platónicos e reais, contradições, doença psicossomática, amor às pessoas e aos animais.
Um livro em crescendo, como se fosse música.
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A mulher do discurso pirâmide construiu o seu edifício pacientemente. Desconcentrando os ouvintes, transformou-os em bocejos e suspiros. Alguns de tanto tentar penetrar a força das palavras adquiriram torcicolos.
Colocou primeiro as palavras mais pesadas, suficientemente impenetráveis e coesas na base. Depois foi-as dispondo metodicamente, umas a agarrar as outras, sempre sobrepostas. Suficientemente sólida, a parede das palavras, construiu mais três, que se amparavam à primeira, com estudada inclinação e peso para que o interior OCO ficasse protegido de intromissões.
Terminada a construção, já os topos mais vulneráveis, por terem sido erigidos no final com outro tipo de palavras mais leves e banais, da assistência hipnotizada com a força da erudição palavreática, alguém teve de dizer alguma coisa para o discurso não parecer tão oco como o interior da pirâmide.
A voz da criatura soou encantadora por cima da assistência, qual flauta de Krishna. A assistência adormecida, sem atentar ao conteúdo, mas seguindo apenas - o som. De súbito, alguém deu pelo espírito santo da orelha e ouviu claramente:
- A linguagem poética vai acabar. Agora só podem utilizar-se metáforas eruditas, abstratas e suficientemente dissimuladoras de intenções!
De repente uma mulher que tinha espírito santo de orelha e língua de serpente soltou uma voz meio desconexa:
- Ora, isso não tem nada de inovador. Já se fazia no tempo da outra senhora, utilizarem-se metáforas eruditas, abstratas, e suficientemente dissimuladoras de intenções...
Os olhos da mulher que fazia o discurso pirâmide, faiscaram. As palavras caíram todas.
E toda a pirâmide se desmoronava, perante a assistência pesarosa. Afinal um edifício tão coerente e sólido…
No centro da pirâmide estava um homem. Enrolado sobre si mesmo na posição fetal os pés e as mãos juntos acorrentados por uma grilheta de palavras. Os olhos perdidos sem LUZ, refletiam o cérebro dissolvido pelos esforços exercidos a desmontar as palavras radioativas.
Em torno de si revolteavam borboletas de cores, azul metálico, verde alface, amarelo jasmim e rosa fúcsia.
Eram os sentimentos. Na ânsia de beber as enganosas palavras radioativas, o homem sacudira-os violentamente.
Na sua pequenez, o homem, tornava-se enorme pela força das palavras. Semicerrando os olhos ver-se-ia uma crista reptilária que lhe subia ao topo da cabeça, e ainda as palavras verdes radioativas lhe prendiam os pulsos e os tornozelos já as borboletas tinham descoberto um escorrega de LUZ e entravam pela boca, pelo esófago envoltas numa luz matutina ainda húmida. Dando volta em bailado sincronizado qual clave de sol iam a rodopiar à volta do coração preenchendo-se de uma luz branca e dourada que se distendia a todo o corpo.
Por fim todo o corpo do homem era luz. Passou de opaco a transparente, deixando ver todos os órgãos que pulsavam regulares, após o que se transformou numa massa incandescente.
As radioativas soltaram-se a guinchar e fugiram a sete pés (cem) parecendo centopeias.
Atarantada, a insignificante mulher com língua de serpente inclinava o pescoço para um só lado, incapaz de dizer sim ou não e balbuciava palavras incoerentes sem perceber todo o processo, nem qual era a sua missão ali…
E VEM UMA FOLHA
E vem uma folha,
Rodopiando, dourada e castanha
Ao mesmo tempo, faz-me pensar outono, decadência,
o que precede a velhice,
as artrites, as artroses e as atrozes dores nas costas,
nas cervicais, nos pés, nos tornozelos e noutras coisas mais.
O medo da solidão...
Ah o medo da solidão!
Das noites frias, sozinhas, e caladas.
Das noites caladas em que as palavras não ressoam nas paredes nuas,
Das minhas mãos que já não têm as tuas,
Das bocas engelhadas, desdentadas.
Das mulheres esventradas que entram paredes dentro como facas afiadas. Dos sonhos perdidos, dos pesadelos, dos gritos e dos grelos.
Crescendo nos vasos de terra estéril com desvelos...
de velhas a arrancar cabelos!
O medo da falta do teu corpo sobre o meu,
A arrancar gemidos e gritos e pedidos.
As asas de um corvo sobre a chaminé.
E os fantasmas que não arredam pé.
E os gritos! Todos os gritos mudos que não dei.
E todas as palavras que calei.
Por não ter quem ouvisse, tudo!
Às vezes a chuva bate forte.
Fica a doer no corpo como um laço de corda.
A corda fica bamba.
E bamba , a corda bamba e eu balanço nela e cheira-me à canela.
Como um doce de arroz onde se prende a trela.
Há sempre uma panela na cozinha, que cozinha .
Ao canto da cozinha um sapo que é uma rela.
Ferve panela!
Há sempre um príncipe que nunca entrou nela.
Ferve sapo, vira príncipe.
Arde fogo na panela. Cozinha a rela.
Tira-me a sela! Solta-me a trela!
PANDEMIA
Aqui estou eu, sozinho
A meia lua do olho em baixo, o olho revirado para o teto, para os cantos,
buscando agora nalgum canto uma ameaça de bolor.
Lá fora a vida. A morte?
Mastigo uma bolacha de água e sal. A barriga distendida pelas horas de sofá.
Na televisão repetem sem cessar os mortos do dia, os mortos da semana, os mortos do mês, os mortos do ano, os mortos da cidade, os mortos do país, os mortos da Europa, os mortos do mundo.
E eu mastigo a bolacha entediado, enjoado de tantos mortos, de tantas seringas e de tantas promessas de crise futura.
Ela foi-se embora. Para casa da mãe, da irmã ou para a pata que a pôs. Mas foi-se. Foi-se e deixou-me aqui, com as bolachas de água e sal, o gato com dezoito anos e eu com os meus sessenta.
Levou os vestidos, os casacos, a loiça do enxoval que trouxe quando juntámos os trapinhos. Levou as promessas, os sonhos, o cantarolar da manhã, o pássaro a debicar no muro as migalhas do pão. Levou a almofada amachucada onde os seus cabelos deixavam uma mancha escura e farta. Levou os olhos rasos de água de quando ouvíamos música e levou os choros, as suspeitas e os ciúmes.
Eu e o gato, aqui, no sofá a cheirar a morte pela televisão,
até que uma manhã de primavera traga outra vez o sol.