terça-feira, 25 de julho de 2023


 

"História de Uma Viagem ou Duas, ou Talvez Não"


Sinopse para contracapa


Escrito para mulheres e homens sensíveis, “História de Uma Viagem, ou Duas, ou Talvez Não”, não é um livro de metáforas.

A realidade da autora a nu, expõe sentires e sofrimentos, mas não é um livro de desesperança. É um livro de luta por dias melhores. De levantar após a queda.

É sobre esperar um abraço. Sobre chegar a velho ainda criança.

Sobre bruxas fadas que amansam dragões.

É um livro para mulheres velhas e rebeldes. Para mulheres que se rebelam, novas e velhas e para homens que querem saber mais sobre mulheres.

Amores platónicos e reais, contradições, doença psicossomática, amor às pessoas e aos animais.

Um livro em crescendo, como se fosse música.


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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

A DERROCADA DO DISCURSO INOVADOR

 




A DERROCADA DO DISCURSO INOVADOR

A mulher do discurso pirâmide construiu o seu edifício pacientemente. Desconcentrando os ouvintes, transformou-os em bocejos e suspiros. Alguns de tanto tentar penetrar a força das palavras adquiriram torcicolos.

Colocou primeiro as palavras mais pesadas, suficientemente impenetráveis e coesas na base. Depois foi-as dispondo metodicamente, umas a agarrar as outras, sempre sobrepostas. Suficientemente sólida, a parede das palavras, construiu mais três, que se amparavam à primeira, com estudada inclinação e peso para que o interior OCO ficasse protegido de intromissões.

Terminada a construção, já os topos mais vulneráveis, por terem sido erigidos no final com outro tipo de palavras mais leves e banais, da assistência hipnotizada com a força da erudição palavreática, alguém teve de dizer alguma coisa para o discurso não parecer tão oco como o interior da pirâmide.

A voz da criatura soou encantadora por cima da assistência, qual flauta de Krishna. A assistência adormecida, sem atentar ao conteúdo, mas seguindo apenas - o som. De súbito, alguém deu pelo espírito santo da orelha e ouviu claramente:

- A linguagem poética vai acabar. Agora só podem utilizar-se metáforas eruditas, abstratas e suficientemente dissimuladoras de intenções!

De repente uma mulher que tinha espírito santo de orelha e língua de serpente soltou uma voz meio desconexa:

- Ora, isso não tem nada de inovador. Já se fazia no tempo da outra senhora, utilizarem-se metáforas eruditas, abstratas, e suficientemente dissimuladoras de intenções... 

Os olhos da mulher que fazia o discurso pirâmide, faiscaram. As palavras caíram todas.

E toda a pirâmide se desmoronava, perante a assistência pesarosa. Afinal um edifício tão coerente e sólido…

No centro da pirâmide estava um homem. Enrolado sobre si mesmo na posição fetal os pés e as mãos juntos acorrentados por uma grilheta de palavras. Os olhos perdidos sem LUZ, refletiam o cérebro dissolvido pelos esforços exercidos a desmontar as palavras radioativas.

Em torno de si revolteavam borboletas de cores, azul metálico, verde alface, amarelo jasmim e rosa fúcsia.

Eram os sentimentos. Na ânsia de beber as enganosas palavras radioativas, o homem sacudira-os violentamente.

Na sua pequenez, o homem, tornava-se enorme pela força das palavras. Semicerrando os olhos ver-se-ia uma crista reptilária que lhe subia ao topo da cabeça, e ainda as palavras verdes radioativas lhe prendiam os pulsos e os tornozelos já as borboletas tinham descoberto um escorrega de LUZ e entravam pela boca, pelo esófago envoltas numa luz matutina ainda húmida. Dando volta em bailado sincronizado qual clave de sol iam a rodopiar à volta do coração preenchendo-se de uma luz branca e dourada que se distendia a todo o corpo.

Por fim todo o corpo do homem era luz. Passou de opaco a transparente, deixando ver todos os órgãos que pulsavam regulares, após o que se transformou numa massa incandescente.

As radioativas soltaram-se a guinchar e fugiram a sete pés (cem) parecendo centopeias.

Atarantada, a insignificante mulher com língua de serpente inclinava o pescoço para um só lado, incapaz de dizer sim ou não e balbuciava palavras incoerentes sem perceber todo o processo, nem qual era a sua missão ali…  

E VEM UMA FOLHA

 E VEM UMA FOLHA


E vem uma folha,

Rodopiando, dourada e castanha

 

Ao mesmo tempo, faz-me pensar outono, decadência, 

o que precede a velhice, 

as artrites, as artroses e as atrozes dores nas costas, 

nas cervicais, nos pés, nos tornozelos e noutras coisas mais. 


O medo da solidão...


Ah o medo da solidão!


Das noites frias, sozinhas, e caladas. 

Das noites caladas em que as palavras não ressoam nas paredes nuas, 

Das minhas mãos que já não têm as tuas, 

Das bocas engelhadas, desdentadas.


Das mulheres esventradas que entram paredes dentro como facas afiadas. Dos sonhos perdidos, dos pesadelos, dos gritos e dos grelos. 

Crescendo nos vasos de terra estéril com desvelos...

                                                                         de velhas a arrancar cabelos! 

O medo da falta do teu corpo sobre o meu,

A arrancar gemidos e gritos e pedidos. 

As asas de um corvo sobre a chaminé. 

E os fantasmas que não arredam pé. 

E os gritos! Todos os gritos mudos que não dei. 

E todas as palavras que calei. 

Por não ter quem ouvisse, tudo!


 



Príncipes e Sapos



Às vezes a chuva bate forte.

Fica a doer no corpo como um laço de corda.
A corda fica bamba.

E bamba , a corda bamba e eu balanço nela e cheira-me à canela.
Como um doce de arroz onde se prende a trela.
Há sempre uma panela na cozinha, que cozinha .
Ao canto da cozinha um sapo que é uma rela.
Ferve panela!

Há sempre um príncipe que nunca entrou nela.

Ferve sapo, vira príncipe.
Arde fogo na panela. Cozinha a rela.

Tira-me a sela! Solta-me a trela!


terça-feira, 26 de janeiro de 2021

 


PANDEMIA


Aqui estou eu, sozinho

A meia lua do olho em baixo, o olho revirado para o teto, para os cantos,

buscando agora nalgum canto uma ameaça de bolor.

Lá fora a vida. A morte? 

Mastigo uma bolacha de água e sal. A barriga distendida pelas horas de sofá.

Na televisão repetem sem cessar os mortos do dia, os mortos da semana, os mortos do mês, os mortos do ano, os mortos da cidade, os mortos do país, os mortos da Europa, os mortos do mundo.

E eu mastigo a bolacha entediado, enjoado de tantos mortos, de tantas seringas e de tantas promessas de crise futura.

Ela foi-se embora. Para casa da mãe, da irmã ou para a pata que a pôs. Mas foi-se. Foi-se e deixou-me aqui, com as bolachas de água e sal, o gato com dezoito anos e eu com os meus sessenta.

Levou os vestidos, os casacos, a loiça do enxoval que trouxe quando juntámos os trapinhos. Levou as promessas, os sonhos, o cantarolar da manhã, o pássaro a debicar no muro as migalhas do pão. Levou a almofada amachucada onde os seus cabelos deixavam uma mancha escura e farta. Levou os olhos rasos de água de quando ouvíamos música e levou os choros, as suspeitas e os ciúmes. 

Eu e o gato, aqui, no sofá a cheirar a morte pela televisão, 

até que uma manhã de primavera traga outra vez o sol.

 



Agora que o Carlos do Carmo partiu, lembrei-me de um fado canção que me fez sentir aos vinte e poucos anos uma grande compaixão pelos idosos. Vinte e poucos anos e aquele fado fez correr lágrimas sentidas no meu rosto.

Lágrimas de compaixão pelos velhos, sempre mais esquecidos, mais vulneráveis, mais pobres, senão materialmente, ao menos de afetos, de carinhos, de uma festa ou de um sorriso.

No fado, “Balada para uma velhinha”, Carlos do Carmo cantava, com letra de Ary dos Santos, "no banco do jardim uma velhinha, está tão-só com a sombrinha, que é o seu pano de fundo... Num banco de jardim uma velhinha está sozinha, não há coisa mais triste neste mundo… já coseu albergadas e bandeiras, verdadeiras... amargou a tristeza até ao fundo".

Hoje também eu, "velhinha", sessenta e dois anos feitos, pergunto-me o que tinha aquele homem para me tocar tão profundamente aos vinte e tantos anos, que me fazia chorar por aqueles velhos tristes quando os via sentados num banco de jardim, à espera… de quê? E sim, às senhoras pode e deve-se perguntar a idade. Não há nada para esconder no facto inexorável de se ter envelhecido.

Felizes aqueles que chegam a envelhecer e ainda assim continuam a crescer e a fazer coisas. Carlos do Carmo partiu, mas sempre num crescendo, deixou-nos um legado inigualável daquilo que hoje nos ensinam a dissimular e esconder. Emoções. Mas nós não somos um país canalha. Não vamos em conversas daqueles que não conseguem ter um discurso coerente porque não falam a verdade, venderam a alma à fama e ao poder e já não conseguem sentir.

Hoje chorei porque morreu um HOMEM. Chorei e senti, já "velhinha" a perda da voz que soube cantar o que sentimos. Acolhemos com amor os nossos retornados das Colónias, os nativos das mesmas, os asilados e refugiados políticos e todos os que quiseram vir viver para o nosso país. A todos estes, Carlos do Carmo cantou a nossa terra, a nossa gente. Pintou Lisboa em canção como nenhum outro o fez, mas também apelou à nossa alma, à nossa solidariedade, à democracia. E nós não somos um país canalha.

Não vamos esquecê-lo nem ao que ele representa. Liberdade e solidariedade, emoção e inteligência, sensibilidade e humildade, no fundo, um povo que é o nosso.

Não. Não somos um país canalha!

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

LAGARTIXAS

  VIRGÍNIA DE SÁ

"História de Uma Viagem ou Duas ou Talvez Não"




Capítulo XXV
Palmela

LAGARTIXAS 


... Quando comprei a casa tudo era verde. Verde selvagem, desenfreado, desordenado, lagartixas que corriam por todo o lado. De brincadeira, pensei até colocar uma placa com os dizeres “Quinta das Lagartixas”, mas depois pensei que seria uma placa enganadora. Com os seus 400m2, não chega a ser uma quinta.

No primeiro ano chorei. Não me conseguia habituar a estes muros prisão, sem vistas para a cidade, o trânsito, o supermercado em frente, o Banco por baixo, uma esplanada com sombra nas traseiras e outra com sol na entrada da frente. No meu apartamento de Carnaxide, em Oeiras, tinha grandes janelas com portadas, varandas enormes e uma vista do quarto andar desafogada e agradável. Ali nunca havia monotonia.

Depois habituei-me às lagartixas a correrem e a apanharem sol. Veio o cão, que ofereci ao Santiago como prenda dos seus 59 anos, ao fim de um mês a vivermos na casa. Mais tarde morreu a gatinha Morgana, com vinte anos, em janeiro de 2020. No início de abril do mesmo ano, apaixonei-me pelo Yoshi, um gatinho de oito meses, que vi numa foto de uma Associação em Coimbra, para adoção. No dia 8 de abril, em pleno Covid, adotámo-lo e renasceu a nossa alegria. Os bichos amam-se, brincam e correm pela casa, abraçam-se. Dormem juntos às sestas e fazem-nos felizes. Acho que aprendemos a ser felizes com eles e as coisas simples da vida.

A janela contempla agora as mudanças de estações. Uma coisa que nem tinha percebido verdadeiramente que existia, porque nem tinha tempo. Os verdes, que se tornam vermelhos e castanhos e amarelos e laranjas, as folhas que caiem, os ventos que sopram, a geada que queima. As temperaturas de menos de 5º pelas noites de inverno, e de mais de quarenta graus nas tardes de verão. E a primavera com as abelhas, as borboletas, as formigas e as lagartixas com a cauda no ar, a correr, perseguidas pelo Faísca. E a cada estação renasço…